domingo, 21 de dezembro de 2025

MÍSTICA EM HENRI BERGSON

 

 

Comentários à dissertação de Ciro Amaro[1]

 


 

Anedota ilustrada, à guisa de epígrafe:

“Eis que eu passeava em sossego

pela Quinta Avenida de NY,

quando vi essa placa de refinada

rotisseria francesa, com finos biscoitos,

e me lembrei da mística de Bergson

e da dissertação de Ciro Amaro.”

(B. Borges, agosto de 2025)

 

Este texto poderia ser uma carta pessoal e não chega a ser uma resenha, pois não foi encomendada por um periódico. Todavia, não é a primeira vez que me ocupo – com prazer – de divulgar um texto ainda inédito, pelo menos em versão impressa. Publiquei uma resenha padrão de um livro de Ian Hacking, ainda não traduzido para o português, à altura. E creio que tal gênero acadêmico cumpriu o papel de divulgar as ideias e, quem sabe, incentivar a divulgação da dita obra em nossa língua.

No caso da dissertação de Ciro Amaro, o que se segue é o registro de um capítulo de nossas conversas, desde a época em que ele foi aluno da graduação em filosofia, na UFU. E sempre conversávamos na sala do café e nas reuniões de departamento. Ele sempre foi, além dos conteúdos da filosofia, um grande leitor de temas da política, da história, geopolítica, bem como um conhecedor da história da Igreja e dos rituais e instituições do Vaticano.

Ao longo das 160 páginas da monografia, que li com atenção e curiosidade, aprendi muito sobre Bergson.  Aos poucos, fui reconhecendo temas e debates da filosofia no século XX e, como eu supunha, pude rever algumas querelas da filosofia especulativa continental e da filosofia analítica em termos da novidade do vitalismo e da abordagem que admite a intuição como via do conhecimento e da compreensão mútua.

Mas, repito, aprendi muito com essa leitura, pois nunca havia lido demoradamente nenhuma obra inteira de Bergson. Durante minha formação, minha atividade docente e minhas pesquisas de pós-graduação, simplesmente nos desencontramos, Bergson e eu. Recentemente, após me aposentar, passei a ler autores e sobre autores diversos, que me faziam falta, de modo que o texto acadêmico aqui considerado contribui para essa “formação continuada” de minha pessoa e de meu repertório. Por exemplo, li as páginas encantadoras de Bachelard e o incrível livro A visão de Deus.  Não por coincidência, presenteei recentemente Ciro Amaro com o exemplar da bem cuidada edição dessa surpreendente obra de Nicolau de Cusa, pela editora Calouste Gulbenkian.  

Foi uma grata surpresa saber, através dessa dissertação, que Bergson foi agraciado com um prêmio Nobel de...literatura. Deixarei para comentar depois sobre a pertinência e a ocasião histórica dessa conquista duradoura para o nosso campo, a filosofia.

Este texto – que poderia ser mais uma boa e longa conversa com o novo  mestre, na sala de nosso verdadeiro cafezinho “filosófico” –  é um singelo e despretensioso apanhado de notas de leitura e emparelhamento de autores e temas, que deixarei listados a seguir, sem me preocupar com ordem ou sistemas. Mas, mesmo que eventualmente alguma passagem se pareça com aquela livre associação entre fulano e beltrano, defendo a abordagem que parte das afinidades e que traduz uma terminologia em outra, sem reduzi-las. Pois creio e professo que a filosofia só sobrevive no modo humilde, de quem conversa com as ciências diversas e as variadas artes.  



INTRODUÇÃO

É muito animador constatar que o recuo histórico ocupa apenas cinco linhas e logo se vê o leitor no campo semântico, cercado de temas e balizas para a viagem que o aguarda. Esse vocabulário, carregado de termos de certa psicologia das sensações já abre caminho para as emoções e a experiencia estética em sentido amplo e generoso: contemplação, angústia, mistério, oculto, consciência. Mas esse palavreado ganha carne ao ser remetido ao contexto da vida, da gênese vital, onde se dá o embate entre matéria e espírito.

A primeira citação de um trecho de Bergson já o caracteriza e distingue bem, pois a dualidade acima referida – e que serve de desculpas para inibir o desvelamento – é traduzida em outros termos (“consciência e materialidade”), elevando  o nível da conversa. Mais que isso, há um grande avanço na reflexão desse pensador e militante francês, expresso na noção de “arranjo” entre as duas formas – dentro de um modus vivendi – e isso é já uma alternativa às doutrinas e sistemas que pressupõem uma conciliação.

Em outros contextos e outras intenções – todavia na mesma metade de século – também Wittgenstein e Gadamer se valeram de categorias parecidas, sob o termo “jogo”. E isso situa Bergson também como inovador filósofo capaz de uma teoria da ação, visto que “a mística é um processo de criação, cujo método intuitivo de acesso se dá a partir da experiência do místico e do seu agir no mundo” (p. 12, aqui e adiante remete-se à dissertação em apreço). E, em termos de composição do argumento, eis que já fica assim planteada a tese que reúne mística e intuição.

E, de novo, procede o lance brusco, pois também o engenheiro austríaco, autor do Tractatus Logico-philosophicus entrou de sola e sem avisar com mais um versículo em staccato, como alguém observou:  há por certo o inefável. Isso se mostra, é o místico” (TLP-6.522) E isso, sem escandalizar quem aponta contradições internas, nos ajuda a... não nos calarmos diante do que não se pode falar.

 PRIMEIRA PARTE : VIDA DE BERGSON E NOÇÔES PRINCIPAIS USADAS POR ELE

O primeiro capítulo da dissertação traça rapidamente um panorama das transformações sociais na Europa desde meados do século XIX até inícios do seguinte. A ciência, a técnica, a guerra e outros negócios marcaram essa época, bem como a psicologia – que abriria um novo mundo também para as ideias e abordagens de homem e humanidade.

E foi, segundo li, justamente aí que entrou Bergson como “um novo pensador” para investigar justamente o homem e sua presença no mundo da vida. Adianto já, com entusiasmo, que esse conceito será retomado por Habermas, na linha alemã, como Lebenswelt, por oposição ao sistema. E não concordo com a tradução alternativa – mundo vivido – pois a disciplina de fundo não é a história nem o particípio passado... O vitalismo mira adiante e pode inspirar uma teoria da ação, penso eu, e creio que não fujo das teses de Amaro.

Bergson é um desses raros autores, cujo quadro categorial foi relativamente assumido pela linguagem acadêmico e artística. Por exemplo, a expressão “elã vital”, tão cara à teologia progressista, por exemplo. Eu mesmo aplicava essa bela imagem dinâmica, sem saber que era um dos fundamentos desse autor francês.

As distinções deixadas por Bergson são geniais e úteis, além de “intuitivas”, se me permitem antecipar a espinha dorsal do texto que comento. Por exemplo, o conhecimento cientifico analisa e resulta da análise, ao passo que  a intuição é o que convém aos temas e problemas metafísicos. Mas, antes, nesse mundo dado dos “sólidos”, precede a distinção entre inteligência e instinto – e é claro que nos misturamos com ambas capacidades animais e espirituais aí implicadas.

Ora, a tese forte já se apresenta logo como “a inteligência não consegue abarcar a coisa viva” (p. 24), pois fica por fora, rodeando a coisa mas sem poder captar o movimento mesmo.

Voltando à provocação de nossa estranha epígrafe acima, eis que Amaro escreva sem nos enrolar com preâmbulos: “O real dura e a duração do real é a única constante da existência” (p. 25) e com isso escapamos da mistificação, que é o recurso da retórica, por meio do desvio e da linguagem figurada. Mas, logo nos deparamos nessa leitura com uma ressalva, para não recairmos no positivismo enganoso: a duração não se mede pelo relógio ou máquinas; participamos dela “através de uma multiplicidade de estados internos” que, por sua vez, não podem ser deturpados nem reduzidos pela espacialização. Creio que Kant gostaria de ver aonde chegaram suas noções de espaço e tempo, enquanto condições de possiblidade de todo o conhecimento, na estética transcendental...

Virtudes do texto de Amaro. Pois já é, de início, notória a capacidade de exposição de Amaro, que, sem dúvida, foi bem orientado em seu mestrado. O texto amarra muito bem uma seção à seguinte e isso harmoniza bem com a maneira direta de entrar nos subtemas, sem circunlóquios e desvios e promessa.

Por exemplo a sessão “1. 4 Intuição” começa por apresentá-la como o elo entre “todas as temáticas trabalhadas por ele [Bergson] ao longo de sua vida e obra”, ou seja, como decorrência de sua “nova filosofia, mediante uma nova metafísica”.

Muito oportunas as considerações sobre “tradução”, ao para se satisfazer com as aporias de sua impossibilidade, que tanto agradam a céticos e analíticos; Amaro utiliza-se dessa crítica (em jargão popular, poderíamos aqui no
Brasil dizer que a ciência troca seis por meia dúzia ou apenas diz em grego os nomes de nossas dores e ossos) para mostrar mais uma vez como Bergson mostrou os limites da ciência, esse “meio muito restrito de conhecer”. (p. 29)

A defesa da metafísica em Bergson, conforme a expõe Amaro, é bastante simpática e capaz de dialogar com as novas disciplinas e visões de vanguarda: não se trata das coisas e entes, mas sobretudo do movimento. E para isso encontra Bergson apoio tão genuíno e original quanto o antigo Zenão de Eléia: uma metafísica que contemple o fluxo, no alcance da duração (p.31).

Ora, essa imagem (dialética) do fluxo aparece na obra de Walter Benjamin, como “turbilhão” – e é com esse termo que ele fala sobre a origem da obra de arte; não no sentido histórico, cronológico. Como não temos tempo aqui para conferir as datas dos textos de Bergson e de Benjamin, mas podemos resolver isso de maneira elegante: ambos tiveram a mesma... intuição.

 

Não se pode, todavia, permanecer nessa imagem vertiginosa. E Amaro nos faz entender, inclusive com a ajuda do português Martins, que os factos estejam submetidos à intuição, na função invertida: eles corrigem e completam “os dados da observação interior”. Sim, inversão em relação ao método hipotético-dedutivo, por exemplo, que parte das conjecturas. E é bom também acertar nossa leitura com um bom leitor de Kant. Deleuze, citado por Amaro, é categórico: “A intuição é o método do bergsonismo. A intuição não é um sentimento, nem uma inspiração (...) e tem suas regras estritas (...)” (p. 32)




 A segunda parte da dissertação propõe-se a apresentar o livro  As duas fontes da moral e da religião, mas logo no primeiro parágrafo já vai além dessa obra de 1932; Ciro Amaro é muito cuidadoso com a indicação das fontes e estabelece uma linha do tempo desde outro escrito influente, lançado em 1907: A evolução criadora. Naquele intervalo de vinte e cinco anos notam-se continuidade e novidade, sobretudo com a “inserção na duração através da intuição sob o aspecto da mística”. (p. 36) Um comentarista vê nessa sequência um salto da metafísica para as forças criadoras do homem na história.

Aliás, o próprio autor Bergson declarou por ocasião do lançamento de As duas fontes..., em 1932: “tento introduzir o misticismo na filosofia como processo de pesquisa filosófica”. (p. 37)

Há na dissertação uma seção para avaliar o recurso didático da dualidade em Bergson. E também temos uma ilustração do impacto de uma figura inspirada, além de seus escritos, que atraía “seu público nas suas aulas”. Uma filósofa deixou seu testemunho de como os ouvintes ficavam “suspensos à sua palavra eloquente e precisa”, pois a fala de Bergson tinha o impacto semelhante ao da música, além de impressionar com frases do apóstolo Paulo sobre o absoluto no qual nos movemos. (p.40)

O texto amarra conceitos da moral, como obrigação, hábito, obediência e não passa ao largo das analogias esperadas de uma vertente vitalista, ou seja, a relação entre natureza e sociedade – inclusive com ilustrações oportunas de formigas e formigueiros. Resultado: o homem é um ser vivo e a humanidade é um organismo... social. E a vida do homem no mundo é “uma enorme rede ou teia”.

A distinção vem logo em seguida, após essa bela imagem: as sociedades primitivas eram fechadas, por sua relação com o instinto (social) – tema que não me cabe desenvolver aqui. Todavia, posso destacar a contribuição de um comentarista: “A moral da sociedade fechada é conformista, impessoal e estática. Baseia-se no costume e no preconceito. Cria tabus e afoga a liberdade”. (p. 53)

A “sociedade aberta” é também mais ampla, pois “nos revela como membros de uma comunidade global”. E a construção dessa doutrina [termo meu] tem data, 1789, com as proposições da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. E Bergson apela a uma bela imagem “não-linear”: tivemos que dar um salto. Pois não é uma diferença de grau, mas uma mudança qualitativa. Na sociedade aberta, vigora “outra moral, é o outro o gênero da obrigação, que vem superpor-se à pressão social”. (p. 55)

No que se segue, percebi uma boa convergência entre Bergson e a noção de “razão instrumental” em Habermas. E comemorei com lápis sobre a xerox ao ver um autor que sempre recomendei a todos os estudantes universitários: Thomas S. Kuhn. Pois é disso que se tratava, trinta anos, em Bergson: mudança de paradigma. Pontos adicionais a Mestre Ciro Amaro.

A dissertação nos ajuda também a corrigir equívocos que talvez a leitura preconceituosa e corrida pudesse produzir, pois Bergson não esteve escrevendo um longo discurso homilético ou apologético do tipo que passa de uma esfera a outra, por truques de retórica. Não é suave a passagem da moral para a espiritualidade. E esse movimento não é um exercício acadêmico do racionalismo especulativo continental... Bergson, conforme essa recente dissertação, não se perde em regresso infinito nem circularidades. É antes a vida que funda a moral e a religião, tout court.

Pela altura da página 65, Ciro nos faz lembrar de um livro fabuloso: Homens representativos, de Ralph Waldo Emerson. E creio que Alasdair McIntyre também teria essa reação, pois “a moral absoluta que esses homens excepcionais possuem’ é um exemplo para a humanidade...

E só me resta, ainda longe de concluir, cumprir minha outra função com esta resenha, qual seja, a de motivar meu leitor a ler o que interessa: a dissertação por extenso e as obras referidas de Bergson e sobre ele. Para motivar tais candidatos a devorar o  “volumoso”, jogo um suspense: eu percebi um Saulo no meio do “exemplo” deixado no genérico Cristianismo e até me emocionei com a voz triste de Renato Russo, em seu último disco de capa amarela.

 


A terceira parte da dissertação recebe o adequado título “A mística e o que ela envolve”, pois o tema é envolvente e a experiência mais ainda. Todavia, o jornalismo e o folclore acadêmico podem também nos “envolver em confusões” e preconceitos. A nota 43 alerta contra a abordagem de caráter negativo, já insinuado no sufixo ismo. O certo seria falarmos de religião e mística, sem o desvio pejorativo de religiosidade e misticismo. Concordo com o programa de certa fenomenologia que pregou o retorno “às coisas mesmas” e, no caso, aos sentimentos e valores mesmos.

A esta altura da despretensiosa resenha, última parte, cabe de novo elogiar o texto de Amaro pelas ressalvas típicas de monografias: não nos propomos a esgotar o assunto; “não é algo fácil de definir” (p. 68) e alguma outra expressão do gênero. A regra geral mira o contexto da arguição e o protocolo da delimitação do tema, mas, em muitos casos – como é o da apresentação da obra de Bergson – o recurso mesmo da definição está sob suspeita. Como “definir” o infinito? E para que desenhar conceitos para quem já se entende com noções?

Admitimos – e aqui creio que falo por Amaro e por mim – que a experiência mística, tão próxima da experiência estética, como na fulguração ou na “fusão de horizontes”, é da esfera íntima e nem sempre passível de expressão verbal articulada. Por exemplo, para citar de novo Wittgenstein, o mais genuíno “juízo estético”, contrariando ou atualizando Kant, não é uma proposição protocolar, mas uma expressão facial, uma interjeição diante da beleza ou do susto: “oh!”. E também por isso, no campo da arte sacra, muitos santos e santas são representados em imagens de êxtase e distanciamento.

Em outros contextos do debate acadêmico, cabe a solução genial da “definição ostensiva”: eis um iceberg! Isto é uma tulipa! E creio que Santo Agostinho também forneceu argumentos sobre saber sobre algo mas não saber dizer a respeito.

Amaro amplia o campo de sua dissertação e das reflexões de Bergson ao citar a simbologia de Jung – “representações do transcendente” -, que enfrentou o cientificismo. E este texto acadêmico, defendido e aprovado em 2024, na UFU onde lecionei, muito me agrada e até emociona, ao citar Mircea Eliade, sobre o sagrado. Eu costumava apresentar em sala de aula a lista dos livros que eu não jogaria fora, de meu balão em chamas... Precioso lastro formado por livros de Gadamer, Thomas Kuhn, Eliade, Todorov e outros geniais pensadores.

Ora, voltando às considerações sobre o gênero aqui cultivado, estou ciente há alguns anos de que resenha está em extinção. E posso “intuir” que as novas gerações se satisfarão com os likes de leitores comuns ou se orientarão pela mera pressão do sucesso de mercado, ancorada pelo cálculo das máquinas de busca.

Mas não nos cabe profetizar e nem... dar spoilers. Assim, vou costurar rapidamente os últimos temas da dissertação de Amaro. O novo mestre passou com certa elegância de uma sessão a outra, mas não por uma contiguidade óbvia e natural. Antes, foi pela própria reflexão e interpretação de Bergson que essas categorias se mostraram interligadas: mística e religião; religião e religiosidade; mística como missão; mística e amor; mística e cristianismo e – por fim – mística e Filosofia.

Muitos filósofos evitariam o tema da mística e outros leriam Nicolau de Cusa e Mestre Eckhart como literatura ou sintoma de uma época. Outros temem a “contaminação” de seu pretenso sistema científico com tautologias e superstições. Todavia, com firmeza e escrita elegante, Amaro dribla todas essas distrações e mantém seu esperado ponto de chegada, pois foi no campo da filosofia que Bergson atuou e é lá, na filosofia, que esta dissertação bateu, ancorou-se. E tanto na dissertação quanto na plataforma da militância de Bergson, a motivação é humanista, no melhor sentido de uma certa teoria da ação.

O item “3.9 Mística e filosofia: uma metafísica, uma intuição, uma humanidade” não recai no vício racionalista formal, pois não recua para a exegese do uno e do todo, nem oscila numa dialética verbal... pois, conforme as últimas linhas do desenvolvimento desta dissertação esta “uma” é “a” humanidade. A mensagem de Bergson, sobretudo nas obras citadas, “não deixa de ser para nós uma luz na escuridão, um alento de esperança em tempos tão tumultuados em que vive a humanidade.” (p. 143)

 

Os temas ficaram tão bem desenvolvidos e amarrados que a Conclusão da dissertação se resolveu em pouco mais de duas páginas. E creio que a banca tenha permitido – como eu faço agora, fora do ritual da pós-graduação – que Ciro Amaro empregue um sinal de exclamação, pois Bergson o merece. “Bergson não foi um pensador francês, mas um filósofo da humanidade!” (p. 146)

Ora, Bergson fez mais que pensar e escrever; teve cargos públicos importantes, em organismos internacionais e se posicionou sobre temas graves. Creio que ele se parecesse um pouco com Bertrand Russell, do outro lado do Canal da Mancha, mas sem a simpatia nem a fé declarada em algo mais que a matemática. E, por essas e outras, Bergson recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. E o aceitou, ao contrário de outro francês anos depois.

Esse prêmio caiu-lhe bem e não foi por falta de bons romances no período avaliado pela Real Academia Sueca. O discurso oficial na cerimônia de entrega dessa honraria poderia adivinhar o efeito positivo que a intuição e o sonho viriam a ter para as artes em geral e para a literatura, em particular, nas décadas seguintes. E como tais recursos ajudariam a conhecer e melhorar a humanidade.

 

(Araraquara, 7 de dezembro de 2025)

 

 

 

 



[1] NASCIMENTO, Ciro Amaro Fernandes. A mística em Henri Bergson [recurso eletrônico], 2024. Orientador: Rubens Nunes Sobrinho, Dissertação (mestrado) Universidade Federal de Uberlândia, Pós-graduação em Filosofia. Disponível em: http://doi.org/10.14393/ufu.di.2023.639

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