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sábado, 6 de junho de 2026

HABERMAS - MINHA HOMENAGEM PÓSTUMA

Verbete  "Habermas" de minha autoria para o

DICIONÁRIO DE FILOSOFIA POLÍTICA 

Editora Unisinos, 2010, 534 páginas, ISBN: 9788574313634 

HABERMAS, 1929-2026 

Jürgen Habermas nasceu em Düsseldorf, Alemanha, e realizou seus estudos universitários em Göttingen, Zurique e Bonn. Em 1954, doutorou-se com uma tese sobre Schelling: O absoluto e a história. Entre 1956 e 1959, foi assistente de Theodor Adorno, no Instituto de Pesquisa Social, da Universidade de Frankfurt. Sob a orientação de Abendroth, em Marburg, concluiu em 1961 sua tese de Habilitation, sobre a esfera pública, publicada no ano seguinte. 

De 1961 a 1964, lecionou filosofia em Heidelberg e, em seguida, em Frankfurt, até 1971. No Instituto Max-Planck, em Starnberg, dirigiu uma pesquisa sobre as condições de vida no mundo da ciência e da técnica. Por fim, trabalhou em Frankfurt como professor de filosofia entre 1983 e 1994, ano em que se aposentou. Habermas foi professor-visitante e conferencista em diversas universidades, recebeu inúmeros títulos e prêmios acadêmicos, com obras traduzidas para diversas línguas. Sua onipresença no cenário intelectual contemporâneo é ilustrada, por exemplo, por um livro de Rüdiger Bubner em que Habermas é figura central nos três capítulos, que versam sobre “Fenomenologia e Hermenêutica”, “Filosofia da linguagem e teoria da ciência” e “Dialética e filosofia prática”. 

Sua extensa obra, ainda em andamento, pode ser demarcada em duas fases, cujo marco divisório é a troca de paradigmas efetuada com sua bem fundada versão do giro lingüístico, preparada nos anos setenta. Todavia, é relevante também notar que há uma clara continuidade entre sua tese sobre a esfera pública e sua obra mais densa e influente, Direito e democracia – entre 1961 e 1992, Habermas manteve uma linha de pesquisa e debates que contempla as mais sérias preocupações epistemológicas e os firmes compromissos políticos de sua geração. 

A extensa obra de Habermas combina teoria política e filosofia; seu biógrafo Detlef Horster reconhece que a democracia é a pressuposição necessária para a compreensão de sua teoria do direito, bem como de sua teoria moral. Horster lembra momentos de sua própria vida de estudante, quando foi convencido pelas duras críticas de Habermas ao movimento estudantil, em 1961 e 1969, quando criticou o ativismo e o irracionalismo daquela “revolução aparente” fomentada por estudantes e igualmente deplorada por seu mestre Adorno. 

Além de dedicar-se na academia a “produzir racionalidade” para os tempos atuais, Habermas também enfrenta temas graves de nosso tempo, como a Guerra no Iraque, nas duas ofensivas, em 1991 e em 2003. Nesta segunda ocasião, ao final de maio, Habermas convidou influentes intelectuais da Europa, tais como Derrida, Umberto Eco, Hobsbawm, Savater, bem como o norte-americano Rorty para uma declaração conjunta na imprensa mundial a favor de uma política externa que valorizasse a Europa, como contraponto ao imperialismo norte-americano. Sua participação no debate público pauta-se, todavia, por extrema cautela e por um desejo incansável de diálogo, sem referendar nem mesmo o slogan que a mídia queria então criar ao assumir a existência de um “terrorismo internacional”, em que os muçulmanos encarnassem o “outro” demonizado. 

Doutrina política e filosofia social 

O jovem Habermas, em um conferência de 1961, proferida em Marburgo, investia na conciliação de teoria e prática pela via da reflexão epistemológica. A filosofia da história teria ainda algum papel na compreensão e na previsão de conseqüências de decisões políticas, mas essa compreensão, que levaria do ensino à prática dos cidadãos, não poderia ser obtida com os rigorosos princípios científicos que tinham atraído Hobbes. 

No ensaio “Direito natural e revolução”, também publicado em Theorie und Praxis, sua análise da Revolução Francesa não referenda o papel vanguardista de filósofos iluminados, pois foi antes o senso-comum que conduziu a luta pela independência na colônia norte-americana. A tradição que, desde Aristóteles, via a política como parte da filosofia prática foi abalada pelas pretensões da ciência experimental moderna e perdeu espaço para as ciências sociais e as disciplinas do direito. Hobbes, em meados do século XVII, executou com rigor científico o que já tinha sido previsto pelos revolucionários modos de pensar de Maquiavel e de Morus. 

O modo moderno passa a compor uma filosofia social cientificamente fundada, apta a enunciar as corretas condições da ordem estatal e social. Em vez do exercício das virtudes, entra em cena a regulação técnica do trato social. Morus, com sua ilha utópica, e Maquiavel, com seus conselhos pragmáticos, procuram responder aos dois grandes riscos de uma nação: a fome e a invasão por inimigos externos. Hobbes, por sua vez, diante do terceiro risco, o dos inimigos internos, com a guerra civil, superará as limitações dos antecessores, ao ocupar-se da construção sistemática da soberania conforme ao direito natural, pois, na Inglaterra do século XVII a afirmação da soberania estatal dependerá de um contrato social.
 
Esfera pública 

A tese de Habermas sobre a esfera pública procede cuidadosamente como estudo histórico-sociológico de uma categoria típica de sociedades burguesas na Europa do século XVIII. A origem da opinião pública foi a convivência de burgueses – proprietários de mercadorias ou intelectuais – em espaços públicos, que aos poucos foram se desgarrando da arquitetura modelada pelo palácio, em torno de salões e saraus, rumo aos cafés e clubes de homens de negócios, que surgiram na França, Inglaterra e, um pouco depois, na Alemanha. 

A esfera da publicidade, interessada no mercado e na cidade, descolou-se da intimidade da família burguesa e organizou-se, a partir dos interesses econômicos da nova classe. Com a proliferação desses pontos de encontro para a “boa conversa”, alguns jornais ou panfletos passaram a dar unidade a linhagens de mentalidade política e interesses corporativos. A imprensa tornou-se ela mesma um novo negócio que, de início, publicava cartas comerciais e notícias sobre perspectivas de preços de matérias-primas e de mercadorias. 

Com o tempo, à medida que a esfera pública burguesa conquistava espaço no poder político representativo, implantaram-se as seções de artigos científicos, e editoriais de análise política. Por fim, os jornais inseriram repórteres dentro do parlamento, para acompanhar o debate político. Eis, portanto, o sentido da tese de Habermas, enunciada no título: a alegada “mudança estrutural da esfera pública” significa a prevalência da imprensa sobre os cafés, no papel de formação e veiculação da opinião pública, que se torna um princípio de organização dos Estados de Direito burgueses.

Trinta anos depois dessa arqueologia dos fundamentos da organização política burguesa, Habermas retoma o tratamento da esfera pública em perspectiva mais sistemática e com intenções normativas: em Direito e democracia, esse conceito – devidamente redimensionado para caber no paradigma discursivo – continua central no quadro categorial de uma teoria social que veio desaguar na defesa intransigente da democracia. Em Direito e democracia, a esfera pública é apresentada como uma “uma estrutura comunicacional do agir orientado pelo entendimento, a qual tem a ver com o espaço social gerado no agir comunicativo”, [vol. II, p. 92] que não se especializa em nenhuma das direções dos temas oriundos daquele “reservatório para interações simples”, que é o mundo da vida; a esfera pública deixa a cargo do sistema político a elaboração especializada. 

Assim também, a esfera pública se distingue da sociedade civil, na medida em que não se institucionaliza em entidades nem em interesses particulares ou corporativos. Citando Parsons, Habermas acrescenta que “na esfera pública luta-se por influência” e essa é uma das conexões teóricas para sua inclusão na “esfera pública política”: “os problemas tematizados na esfera pública política transparecem inicialmente na pressão social exercida pelo sofrimento que se reflete no espelho de experiências pessoais de vida. E, na medida em que essas experiências encontram sua expressão nas linguagens da religião, da arte e da literatura, a esfera pública ‘literária’, especializada na articulação e na descoberta do mundo, entrelaça-se com a política”. [vol. II, p. 97] 

Legitimidade e legitimação

Na obra em que reconstrói o materialismo histórico, Habermas indica que “legitimidade significa que um ordenamento político é digno de ser reconhecido” como justo e equânime. A legitimidade é, portanto, uma alta expectativa de validade, que envolve grandes grupos, e que se restringe a sociedades organizadas sob a forma de Estado. A busca de consenso, que inspira os procedimentos discursivos da legitimação deixa margem para a crítica, pois a legitimidade é uma “exigência de validade contestável”. 

Habermas debateu essa questão com Niklas Luhmann, contrapondo-se à abordagem sistêmica e à ideologia da tecnocracia que queriam, respectivamente, rebaixar a exigência de legitimidade à mera legalidade dos ordenamentos políticos, bem como aplicar o argumento da complexidade em prejuízo da formação pública da vontade e do exercício da democracia. 

O Estado, na fase atual do capitalismo tardio, sofre uma crise de legitimação, embora possa dispor de inúmeros mecanismos para gerenciar as tendências de crise, transferindo-as de um subsistema a outro, até que chegue a seu limite sistêmico: não se pode produzir sentido por decreto. Habermas passa da análise ao discurso normativo, quando assume que seu esforço teórico deve conduzir à defesa da democracia, mediante a construção da legitimação, o que extrapola o mero roteiro do procedimento, pois “só vale como legítimo o direito que conseguiu aceitação racional por parte de todos os membros do direito, numa formação discursiva da opinião e da vontade”. [Direito e democracia, vol. I, p. 172] 

Habermas recupera o entusiasmo e o compromisso com “valores da civilização”, tais como o Estado democrático de direito. Torna-se necessário dar uma direção aos ordenamentos jurídicos e políticos, pois, se mantido apenas formalmente, “o Estado de direito e o Estado social são possíveis sem que haja democracia”. [p. 109] Ora, o novo paradigma resolve a conexão problemática de liberdade privada e autonomia do cidadão; com ele ficará claro que autonomia pública e privada, bem como direitos humanos e soberania popular se pressupõem mutuamente.

Racionalidade e crítica do pós-modernismo 

Um dos motivos que levaram Habermas a se afastar da primeira geração da Teoria Crítica é a constatação de um déficit de racionalidade na sua Ideologiekritik, entendida enquanto crítica da ideologia dominante. Habermas apresentou a própria teoria crítica como deficitária. Desde Conhecimento e interesse (1968), ele afirma que a postura da crítica da ideologia não é mais suficiente para demonstrar os padrões críticos da teoria da sociedade, ou seja, há uma incapacidade epistemológica na crítica da ideologia para compor a teoria da racionalidade exigida por uma teoria social que se proponha a diagnosticar as patologias sócio-econômicas da atualidade. Ali, a própria noção pejorativa de ideologia foi substituída pela categoria interesse, que supõe uma dimensão constitutiva da emancipação da espécie. 

Ao procurar produzir racionalidade, Habermas enveredou-se pelo projeto de dar à teoria crítica uma nova fundamentação, que evitasse os paradoxos das abordagens contextualistas, aquelas em que uma teoria crítica da sociedade é endereçada a um grupo de agentes específico, historicamente situado, o que abre possibilidades para o relativismo e o ceticismo. Nesse contexto, não lhe bastou defender o “projeto inacabado” do racionalismo moderno; Habermas pôs-se a identificar e a combater os neo-conservadores que se fizeram ideólogos do Pós-modernismo, entre os quais incluiu até mesmo seus mestres Adorno e Horkheimer: a Dialética do Esclarecimento, composta por esta dupla, teria um efeito remitologizante. 

Lyotard, um dos interlocutores visados nas conferências da coletânea Discurso filosófico da modernidade, deu uma definição de “moderno”, na qual Habermas se encaixa perfeitamente: moderno é quem ainda acredita em grandes discursos, como “emancipação do gênero humano”. Princípio do Discurso O “princípio D”, de discurso, que concentra toda a força argumentativa de Habermas, é o seguinte: “São válidas as normas de ação às quais todos os possíveis atingidos poderiam dar o seu assentimento, na qualidade de participantes de discursos racionais” [Direito e democracia, vol.I, p. 142], entendendo-se por “discurso racional” toda tentativa de entendimento sobre pretensões de validade problemáticas. O discurso, assim entendido, permite temas e contribuições livremente movimentados no espaço público. 

Esse princípio, mesmo ao lado da forma jurídica das relações interativas, não é ainda suficiente para fundamentar qualquer direito. “O princípio do discurso só pode assumir a figura de um princípio da democracia, se estiver interligado com o médium do direito, formando um sistema de direitos que coloca a autonomia pública numa relação de pressuposição recíproca”.[Direito e democracia, vol. II, p. 165] Democracia Habermas analisou diversas teorias, inclusive sociológicas, sobre modelos de política deliberativa, sem descartar sua base empírica, que ele eventualmente resume com as expressões “sociedades acostumadas com a liberdade” ou “sociedades desenvolvidas”. 

A teoria do discurso assimila elementos liberais e republicanos, para integrá-los no conceito de um procedimento ideal para a deliberação e a tomada de decisão, convencida de que é possível chegar a resultados racionais eqüitativos. A razão prática passa dos direitos humanos universais para as regras do discurso e as formas de argumentação, que extraem seu conteúdo normativo da base de validade do agir orientado pelo entendimento. Na teoria do discurso, a política deliberativa depende da institucionalização, pelo Estado, dos correspondentes processos e pressupostos de comunicação.

Em vez dos clássicos paradoxos alimentados pela superada filosofia da consciência, em torno de modelos apoiados em sujeitos privados e particulares, a teoria do discurso “conta com a intersubjetividade de processos de entendimento”, que se realizam através de procedimentos democráticos ou na rede comunicacional de esferas públicas políticas. Aqui, a sociedade civil – base social de esferas públicas autônomas – distingue-se tanto do sistema econômico (mercado) quanto da administração pública. E daí vem uma mudança de pesos nas relações entre dinheiro, poder administrativo e solidariedade, que satisfazem, na sociedade moderna, as necessidades de integração e regulação. 

Obras 

Theorie und Praxis: Sozialphilosophischen Studien. Frankfurt sobre o Meno, Suhrkamp, 1988 (Luchterhand,1963) [Teoria y práxis: ensayos de filosofia social. Buenos Aires, Sur, 1966]; Strukturwandel der Öffentlichkeit. Darmstadt, Luchterhand, 1962 [Mudança estrutural da esfera pública. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1984]; Faktizität und Geltung. Frankfurt sobre o Meno, Suhrkamp, 1992 [Direito e democracia. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1997, 2 vol.]; Erkenntnis und Interesse. Frankfurt sobre o Meno, Suhrkamp, 1968 [Conhecimento e interesse. Rio de Janeiro, Zahar, 1982; Zur Rekonstruktion des historischen Materialismus. Frankfurt sobre o Meno, Suhrkamp, 1976. [Para a reconstrução do materialismo histórico. São Paulo, Brasiliense, 1983]; Der philosophische Diskurs der Moderne. Frankfurt sobre o Meno, Suhrkamp, 1985 [O discurso filosófico da modernidade. Lisboa, Dom Quixote, 1990]; Die Einbeziehung des Anderen – Studien zur politischen Theorie. Frankfurt sobre o Meno, Suhrkamp, 1996 [A inclusão do outro – estudos de teoria política. São Paulo, Loyola, 2004] 

Referências bibliográficas

 BUBNER, Rüdiger. La filosofia alemana contemporanea. Madri, Cátedra, 1984 (Cambridge, 1981); HORSTER, Detlef. Jürgen Habermas zur Einführung. Hamburg, Junius, 1999; BORGES, Bento Itamar. A fundamentação discursiva da teoria crítica em Habermas. Porto Alegre, UFRGS, 1986, mimeo.; BORGES, Bento Itamar. Crítica e teorias da crise. Porto Alegre, EDIPUCRS, 2004; SOUSA, José Crisóstomo de. (org.) Filosofia, racionalidade, democracia: os debates Rorty & Habermas. São Paulo, UNESP, 2005; BORRADORI, G. Filosofia em tempos de terror: diálogos com Habermas e Derrida. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004. 

Verbetes correlatos: Democracia; Direito; Escola de Frankfurt; Estado 

Bento Itamar Borges Doutor em Filosofia pela UFMG, Pós-doutorado pela PUCRS, Professor Associado I do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Uberlândia, Minas Gerais.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

O tradutor de Raimundo Góis

Este é um post sobre o minúsculo grupo da Teoria Crítica, na Universidade Federal de Uberlândia. 

O post veio compensar o fim da correspondência: poucos escrevem cartas e menos ainda respondem. E essa decadência da escrita inclui intelectuais: não há mais cartas nossas que venham a ser publicadas um dia. Eu mesmo fiz um estudo sobre esse gênero ao traduzir e publicar cartas trocadas entre Kant e Lichtenberg. 

"Hoje pego na pena" para complementar uma fala em recente mesa redonda. Dirijo-me a um colega em particular e aos leitores do futuro. Preciso esclarecer em que circunstâncias eu pareci grosseiro e frio ao participar de uma banca que veio a aprovar para o Departamento de Filosofia o colega Prof. Dr. Rafael Cordeiro Silva. 

Lembrou o colega - e de fato eu não guardava essa cena em minha memória - que, durante a entrevista do processo de seleção, ele se dirigiu a minha humilde pessoa com a notícia de reconhecimento: sabia que eu havia traduzido um livro sobre Habermas. 

Transcrevo a seguir duas crônicas que já estavam escritas um pouco antes do dia 5 de dezembro de 2019, durante evento de comemoração dos 25 anos do curso de Filosofia na UFU.


"Seriedade acadêmica. Um conselho grátis para professores novatos, em bancas de concursos: jamais sorrir para candidatos. Há argumentos na ordem das razões, mas prefiro chocar com a experiência. Estivemos, dois colegas e eu, num processo seletivo para contratar professor substituto. Eu presidia a banca, que teve que reprovar alguns candidatos, com as devidas notas e carimbos. Uma senhora desse grupo “sem sorte” entrou com recurso. Pronto. Travou o processo e nos jogou no vai e vem com a justiça de procuradores e embargadores. Semestre correndo e alunos sem aula daquela matéria. As alegações da figura – no direito dela, que respeitamos também em sério – seguiram nessa linha assaz interessante: nós, os docentes da banca, teríamos recebido a dita cuja com umas caras boas e sorrisos nos lábios. E consta que acenávamos com a cabeça suavemente para frente e para trás, como se concordássemos com as respostas apresentadas pela reclamante durante entrevista, data vênia. Well, agora prescreveu e é hora de rirmos do episódio, mas o caso foi sério e não é agradável ser réu, nem ver contestadas nossas decisões lavradas em ata. Agora é cara feia e seriedade nos procedimentos, para garantir a legitimidade, como bem queria, desde seu ótimo título, o Sr. Niklas Luhmann, sistemático num sentido e talvez sisudo em outro."

Esse episódio foi anterior ao concurso do Prof. Cordeiro Silva. E o texto, inédito, repito: estava pronto antes do dia 5/12/19.

Ora, devo também ressaltar minha situação - de "autor" de terceira mão - como tradutor do livro de Raymond Geuss sobre Habermas e a Escola de Frankurt.  Essa crônica se refere a um fato de 1989 e foi escrita há um ano ou dois:


"Rio de Janeiro, Praia Vermelha, 1989. O filósofo alemão Habermas veio ao Brasil e fui ouvir suas conferências. Ele era meu “material de pesquisa” para o mestrado e eu, por ser um dos primeiros a estudar esse autor, fui convidado para um ciclo de palestras preparatórias. Avião, hotel, prestígio. Eu me senti como os músicos do Paralamas ou do Skank em show para esquentar a galera, nos primeiros anos de Rock in Rio: feliz com o sucesso alheio e o próprio. Em um intervalo entre as palestras, pedi ao colega Álvaro Valls que me apresentasse a Habermas. E fui, de fato, apresentado como “o tradutor do livro de Geuss”, no ano anterior, pela Editora Papirus. O visitante apertou minha mão e disse em bom alemão, que eu já era capaz de entender: “Não leve muito a sério o que ele diz sobre minha obra...” 

******

Então, meu caro colega Rafael. Eis aqui uma resposta acadêmica: eu não podia rir muito em concurso e eu tinha medo de que você também achasse que eu piorei ainda mais o Habermas, em português, etc. 

Mas é igualmente bom lembrar que tivemos vários lances de colaboração e de gentilezas acadêmicas, inclusive bancas de pós e uma orelha para um livro. 

No campo das relações pessoais e familiares sempre estivemos bem e temos várias anedotas a contar, inclusive daquela cerveja alemã no café da manhã em BH, no dia 12 de outubro do ano 2000. 

No futuro, quando você se aposentar, talvez possamos ser - além de amigos - vizinhos nos Alpes suíços, como foram Adorno e Lowenthal. 

Mas não creio que o nosso condomínio de bangalôs fosse maior que isso, pois a Teoria Crítica em Uberlândia não tem um grupo grande. Em parte, a culpa desse encolhimento é a política partidária que nos irrita e afasta - nesta época infeliz de recrudescimento do fascismo.

Esse embate afeta nosso pequeno grupo, mas felizmente, não vale para nós dois, que somos mais da metade do contingente docente dessa tendência interessada em filosofia social. 

Atenciosamente,


Professor Dr. Bento Itamar Borges
(aposentado, UFU)



segunda-feira, 18 de abril de 2016


17 de abril

O DIA DO MASSACRE

 

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O Filósofo do Cerrado participou de uma mesa-redonda no 1º Simpósio Internacional de Ética e Política, na Universidade Federal de Goiás, em abril de 1996. O encontro de teóricos ocorreu uma semana depois do terrível massacre. Disposto a quebrar a cara, o filósofo referiu-se a esse triste exemplo de violência do Estado contra pobres trabalhadores – condição bastante parecida com a situação dos curdos, que o referido Habermas deveria conhecer bem na sua Alemanha, etc.

 


O texto, publicado dois anos depois, pode ser lido na íntegra e de graça, neste endereço:



 

Entre o ano do evento e o da publicação, passou por Uberlândia uma caravana de Trabalhadores Rurais Sem-terra, que marchava rumo à Brasília, em busca de terra, trabalho, liberdade e justiça. Uma exposição de fotos feitas por Sebastião Salgado foi organizado no Colégio Nacional, onde também podia ser adquirido o livro dele. A nota 13 acima refere-se a uma das fotos, mas no momento não tenho como reproduzir aqui a imagem exata.


Ontem, dia 17 de abril de 2016, os grandes jornais não se lembraram desse lamentável aniversário. A grande imprensa golpista estava ocupada na organização de outro ataque: um golpe contra a democracia, ao encaminhar a admissibilidade do impeachment de uma presidenta eleita e legitimada. O complô dos golpistas contava ontem com a tropa de choque de bandidos, latifundiários, pastores fascistas e torturadores, siglas de aluguel, em mesa presidida por um gangster diabólico e hipócrita. #foracunha!

Uma exceção: uma rádio da cidade de Marabá lembra os mortos e feridos (e criminosos impunes).


 

O Jornal Brasil de Fato – do tipo que não vemos em salas de espera de consultórios médicos – também publicou matéria alusiva ao episódio de 96 e às lutas atuais por terra e por paz, sobretudo no Pará.

https://www.brasildefato.com.br/2016/04/17/acampamento-em-eldorado-dos-carajas-homenageia-mortos-e-debate-as-novas-lutas/

 

Nestes vinte anos, mais 271 trabalhadores rurais e lideranças foram assassinados somente no estado do Pará, traçando um trágico cenário da luta pelo direito à terra no Brasil. Em 2015, o Brasil registrou o maior número de mortes por conflitos por terra dos últimos 12 anos. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) registrou 50 assassinatos, 144 pessoas ameaçadas e 59 tentativas de homicídio em conflitos no campo. Os estados de Rondônia, Pará e Maranhão concentram 90% desses casos.

Somente no estado do Pará, entre 1964 e 2014 (40 anos), foram registrados 947 assassinatos de trabalhadores rurais, lideranças, religiosos e advogados. As regiões sul e sudeste do estado apresentam os índices mais altos de violência e concentram a maioria dos assassinatos de trabalhadores e lideranças rurais

 

https://anistia.org.br/noticias/massacre-de-eldorado-dos-carajas-20-anos-de-impunidade-e-violencia-campo/

 

Este mês, duas mortes no campo chamaram nossa atenção. A polícia do Paraná executou os dois trabalhadores rurais, em demanda com empresas de celulose. A preocupação inclui o simbólico (na verdade, diabólico) e o sintomático: o estado do Paraná está, lamentavelmente, servindo ao golpe em curso, ao sediar o quartel-general do Delegado Moro e seus hipócritas apoiadores.  #ficadilma!

Quem nos ajuda a entender a tramoia em curso é um filósofo, de quem muito me orgulho: Aldo Fornazieri, meu colega de mestrado no Rio Grande do Sul, há trinta anos. Tem aparecido também em canais de TV que promovem o esclarecimento e  a análise política. Outro dia, ele escrevia sobre os quatro tabuleiros desse jogo perigoso, o golpe midiático-judicial. E eu gostaria de perguntar a ele ou de continuar a crítica assim: “...e quem é o dono do cassino?”

O filósofo do cerrado anda longe da sala de aula e da mídia. Não tem feito suas charges e nem contribuído para o debate público, mas se orgulha de poder recomendar também o filósofo Vladimir Safatle. Aqui vai um texto recente dele, retransmitido em blog de Luciana Genro - mas pode ser lido nos sites da Folha de São Paulo e da UOL, onde apareceu primeiro.


 


Terra

Sebastião Salgado

 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

O LIVRO DE RAIMUNDO GÓES

HISTÓRIA DA FILOSOFIA UNIVERSAL
- Capítulo 995 -

Esta série pretende contar a História da Filosofia Universal, ou seja, de minha própria contribuição para essa longa conversa. Na verdade, essa prosa: bate-papo & conversa fiada, mas sobretudo o texto escrito não-poético. Pois que eu cá me identifico com as idéias de Havelock – sobre o impacto da escrita na cultura grega – e de um certo Jaap Mansfeld, que apresenta uma edição dos Pré-socráticos, pela editora Reclam.
Há pouquíssima filosofia fora dos livros. Daí um bom viés: a impressão – o texto impresso. Conto aqui como foi publicado aquilo que quis e consegui publicar, pois ainda há algo na gaveta e um sonho de longa data: um fogão à lenha, para ir queimando não as obras, mas as sobras incompletas, quando muito rabisco virou cinza e não vai retornar como ave. E pena é o que não falta. Já é.
Carl Jung também sonhava com um fogão assim
(e queimar as próprias sobras não é crime)

Então, não se preocupem com o estado de ânimo deste Filósofo do Cerrado; não se trata de choramingar fracassos. São sempre capítulos das peripécias intelectuais e editoriais de alguns artigos e três livros. São, aliás, sucessos: o que sucedeu com meus textos realmente publicados.
E qual é a serventia disso, mano véio? Assim como a filosofia toda, para quase nada serve isso. Talvez, quando muito, para animar alguns novatos e desanimar outros tantos. E aí, sim, esse efeito pode depender do humor dos outros, da paciência e da obstinação de se deixarem levar um pouco pela ameaça do publish or perish, que não deixa de ser um exemplo bastante imponente de imperativo sistêmico. Esperavam um “categórico”? Sorry, não é um discurso moral e muito menos edificante.
O livro do Geuss

1983. Mestrado de filosofia recém-criado na UFRGS – que os gaúchos chamavam de URGS, sem F de federal, já que a onda separatista e dura de matar. O Prof. Ernildo Stein, no primeiro dia de aula distribuiu tarefas e textos para os seminários de seu curso sobre Teorias da Ideologia. Fiquei com um livro em inglês, que deveria expor depois. Na verdade, bastaria ler o 1º capítulo, sobre ideologia. Em pouco tempo, li todo o livro, apresentei meu seminário e, em seguida, resolvi traduzi-lo. Raymond Geuss escreveu um livro breve e claro, com a intenção de apresentar ao público anglo-saxão as idéias originalmente complicadas dos alemães da Escola de Frankfurt. O título, “A idéia de uma Teoria Crítica” pode parecer curioso e até irônico para um grupo que se entendia como neo-materialista. O nome de Habermas, no subtítulo, já aponta não só o nome da moda ao final dos anos 80, mas também as pesquisas dele no campo das ciências da linguagem. Os outros dois capítulos tratam dos temas “interesses” e “teoria crítica”. Essa leitura teve, sem dúvida, forte influência em minha dissertação de mestrado, recentemente publicada como A transformação da Teoria Crítica (Edufu, 2010).
O Prof. Stein, nosso sempre querido e respeitado mestre e orientador, aprovou meu plano de publicar a tradução do livro do Geuss, mas não conseguiu editoras gaúchas para isso. Nos anos seguintes, procurei por minha conta uma editora, até que, com a mediação da colega de trabalho Lídia Rodrigo, consegui a Editora Papirus, de Campinas.
A edição brasileira 

1988. Foi publicada a tradução, primeira edição. Na falta de uma orelha prometida pelo mestre Stein, sempre atarefado com uma dúzia de orientandos, fiz eu mesmo a apresentação, quando já exibia o então raro título de “mestre em filosofia”.
Em poucos anos, a edição foi esgotada, mas a editora Papirus, que passou a se dedicar a algumas áreas acadêmicas, não se interessou por uma segunda edição. Eu gostaria muito de ver uma segunda edição, também para as famosas correções e uma eventual ampliação. Por exemplo, os índios da região amazônica que tinham sido descobertos pouco antes de 1980 e passaram a ser chamados de ianomâmis tinham antes seu nome grafado com trema, yanomamös. E não sei se nesses trinta anos apareceu uma boa expressão em português para o belo conceito de wishfull thinking, mantido no original.
Desde que passamos a procurar informações na internet, meu nome passou a ter muitas ocorrências como tradutor da obra de Geuss. E notei também que grande parte das citações desse livro foi feita por estudiosos do Direito – o que prova a utilidade de uma abordagem analítica e simplificada.

Raymond Geuss, que explicou Habermas


1989. Habermas veio ao Brasil e me encontrei com ele no Rio de Janeiro. Pedi que meu professor e amigo Álvaro Valls me apresentasse ao alemão visitante. O gancho foi esse: aqui está o tradutor do livro de Geuss, de quem lhe falei. Apertos de mãos e as expressões alemãs de praxe, mais o misterioso comentário de Habermas: “...não leve esse Geuss muito a sério, não...” Tarde demais. E continuaria com a carga, para fazer de Habermas um autor menos especulativo – e para destranscendentalizar sua situação ideal de fala.
A máquina não era tão colorida
(e nem tão perigosa como a outra Remington)


Foi justamente o colega Ed, da Paraíba, quem nos enviou
o texto sobre o negacionismo

"Negacionismo é um fenômeno que ocorre quando um determinado dado da realidade, confirmado por sólida evidência científica, por algum motivo, desagrada tão profundamente uma determinada parcela da sociedade que passa a ser lucrativo — psicológica, política ou financeiramente — tergiversar a respeito. Hoje em dia a vítima mais evidente é o aquecimento global de origem humana, mas já houve picos envolvendo, por exemplo, a natureza cancerígena da fumaça de tabaco, a evolução das espécies por meio de seleção natural, o Holocausto na 2ª Guerra."
Os macetes de jornalistas e catedráticos em seus minutos de fama, na contramão do bom senso:
>Encontre acadêmicos que defendem o seu ponto de vista
>Cite fatos científicos corretos, mas irrelevantes para o assunto em questão
>Descontextualize a ciência
>Manipule desonestamente o conceito de “dúvida” científica
>Use a inércia e a covardia a seu favor...
Texto inteiro no endereço a seguir:

Creio que contribuí um pouco com essa questão, ao traduzir – por encomenda – dois textos sobre “controvertibilidade”. Já falei desse tema da pedagogia em outro blog, no pippeshow. Ao ilustrar o post com imagens da net, ficamos surpresos com um uso meio safado da bandeira levada pelo alemão Sander, que comenta uma carta aberta de educadores alemães contra a escola que queira “fazer a cabeça”. O problema é alguns grupos que acreditam em certas coisas meio estranhas apelam para o direito à controvérsia. Discos voadores, terra quadrada ou chata, criacionismo versus evolucionismo? Tudo deveria ser ensinado, em pé de igualdade. Será possível?

Eu mesmo gosto de ajudar os crentes de diversos naipes que se sentem constrangidos diante de ateus, quando repasso o esquema argumentativo que nivela o debate: não se pode provar que Deus existe. Ok. E daí? Tampouco se pode provar que Deus não existe...

Estão com saudades de von Daniken?



Endereços para ler os dois textos que traduzi, sobre controvertibilidade:

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

HISTÓRIA DA FILOSOFIA - CAPÍTULO 999

FILOSOFIA HOJE: HÁ LUGAR OU NÃO ALUGAR?

Violas, nossas violas: prontas para repentes e desafios,
pois a dupla não afina e nem desafina

Conforme nunca prometido neste blog, eis um capítulo da História da Filosofia Ocidental e Oriental. Pois tem hora que um grande filósofo mata a charada, de um golpe só. Pow! E fala o que gostaríamos de falar sobre outro pretenso grande filósofo, numa época dada a grandiloqüências. Tipo Marx sobre Hegel - Marx on Hegel, em cima dele e revirando seu edifício redondo de ponta-cabeça. De fato, o amigo de Engels resumiu assim: A filosofia hegeliana da história é a história reestilizada da filosofia, aliás, de uma certa filosofia, a sua, a hegeliana mesma.



Sorria! A filosofia não vai acabar antes da hora.
  Assim sendo e sem a mínima chance de emplacar nowadays uma ideologia disfarçada de teologia do Estado, este blog fará isso: contar a história da filosofia a partir e em torno das peripécias de um pequeno filósofo enroscado nos cabelos de suas próprias pernas. Mas que não consegue desmafagafar as artimanhas do capeta neo-escolástico e nem plantar uma bananeira dialética.
Antes disso, o Filósofo do Cerrado, orgulha-se de ter
formado dupla com o colega Humberto Guido e com
o piauiense acidental Helder Buenos Aires
Para não derrapar no culto à falta de personalidade, até porque esse é o script da enlutada Choréia do Norte, tomaremos um "viés" - expressão que aqui homenageia os pedagogos críticos dos anos 80 - pois podemos contar alguns entreveros relacionados a textos publicados nesse quarto de século, com direito a puxadas de tapete, mas não de cisco para debaixo dele.  
Galopeeeeeeeeeeeiraaaaa!
Existe filosofia no Brasil? Por supuesto!
(assim como existe música de  mariachis por acá.)

Começa-se pelo fim: o mais recente sucesso da filosofia mundial, que pode ser lido no endereço da Revista Poros, da Faculdade Católica de Uberlândia, prestes a ganhar um P de Pontífícia. Confiram, caso queiram e tenham um tempinho a perder:
Duas ou três curiosidades sobre esse artigo: levou 21 anos para sair da gaveta e foi escrito por dois colegas, aliás, dois xarás. Coisa rara na filosofia em geral. Adorno e Horkheimer figuram juntos na capa de Dialética do Esclarecimento. Marx e Engels sempre trabalharam juntos. Quem mais? Povinho mais lonely rider esse nosso, siô. Vamos ao arrepio, against the current.

Não confundir o parceiro com esse inspirado heideggeriano de olho na poesia.


Tem gente que não gosta de um título em forma de trocadilho. Mas a coisa pode ficar chique se sugerir um palíndromo, no vai e vem: O lugar da filosofia e a filosofia do lugar.
E não confundir o filósofo do norte com esse xará do forró nordestino.
Certa vez um sujeito com voz de taquara rachada quis tirar um sarro, quis desqualificar um título assim. Bateu e levou: que tal esse, de Jean Pierre Labarriére e Gwendoline Jarzig, aqui citado de memória? "O conceito de trabalho e o trabalho do conceito". Engoliu em seco e saiu de fininho, pois conhecia também esses hegelianos da moda no início dos noventa.

Mas será um dos Beneditos? Não, nenhum dos Nunes acima.
Esse aqui é o que tocou a noite inteira, sem parar.

Então é isso: Qual é o lugar da filosofia hoje, em nosso sistema de conversas e teorias, ou seja, quando o filósofo fica sem lugar? & o que dizer da filosofia do lugar, de nosso lugar, nosso meio e nosso momento? E será que esta não poderia ajudar aquela? Essas coisas.
E foi por causa do grande Tim Maia que soubemos do Bené Nunes,
convidado a tocar no casamento da Juliana, filha do
Coroné Antônio Bento...
De início, foi tentada uma outra parceria, que não vingou. O candidato a parceiro entrou numas de hierarquia acadêmica, virou reitor, o que no caso equivale a empresário do ensino. No regrets, ele era bem "Amado" no chapadão, mas nada de fazer segunda voz.

Mas se a primeira metade do texto ficou duas décadas na gaveta, manuscrita a bic azul e depois datilografada na Remington, foi porque não ia rolar uma versão solo. Tinha que ser uma parceria, no sentido musical, afinadinhos em duas vozes e com arranjos de harpas paraguayas no lago azul de Ypacaraí (ou I-pa-caray).
E o Coroné supra-citado não deve ser confundido com o Bento Prado Jr.

(embora essa patente não lhe permita dispensar um Juanito Caminador 12 anos on the rocks and rolls) 
Enfim, ficam satisfeitos os co-autores e quase compadres com essa publicação da revista Poros. Agradecimentos ao pessoal da Católica. E... vamos ler e divulgar.  Pois é isso que o facebook não tem: conteúdo. Curtiu? (kkkk...)
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Revista POROS

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SEÇÃO QUINTA SEM LEI

domingo, 11 de setembro de 2011

O N C E

Once pode ser “onze” e pode ser “uma vez”.

Em duas línguas muito faladas na América, espanhol e inglês, o onze pode se misturar com o início de muitas histórias para criança e algumas para boi dormir.
O  inteligente cineasta alemão Wim Wenders reuniu fotos em um livro. Para cada foto, conta uma pequena história, que sempre começa com “once”, título da obra impressa, aliás: once upon a time. Wim Wenders coincide com a teoria crítica em muitas de suas críticas, sob a sombra de Hegel, como na figura do filme que narra sua chegada às salas de exibição, no momento em que o cinema já morreu. Seu biógrafo Peter Buchka chega a citar nomes de gente que influenciou a obra de Wenders, tipo Theodor Adorno.

Theodor Wisengrund Adorno nasceu em 1903, no dia onze de setembro.
O dia onze de setembro é o Dia do Cerrado.

Brasília, que sofre com o ar seco e com a fumaça das queimadas, lança novos projetos e apelos em defesa do que resta de cerrado vivo, em pé.  Pau torto deve ter o direito de viver torto.
No meio do cerrado, a antiga capital de Goiás realiza seu festival de cinema ambiental, o FICA. Há uns cinco anos, um dos filmes premiados desenvolveu a frase de Adorno: “A vida não vive”.


Contrariando Adorno, o teimoso cerrado se esforça e arrisca lançar suas flores e folhas novas
em plena seca, mesmo no acostamento das estradas queimadas.

O Filósofo do Cerrado já tem dois motivos suficientes para marcar o dia onze de setembro: o filósofo (Adorno) e o cerrado (adornado de atrativos para atrair abelhas e beija-flores).


E não é necessário dar espaço aqui a outros assuntos que se ligam a este dia, desde 2001.


Um aluno de Adorno, Jürgen Habermas, esteve em Nova Iorque pouco depois de 11.09.2001 e foi entrevistado pela filósofa Giovanna Borradori, que também entrevistou  Derrida, em outra ocasião. As duas entrevistas, mais os comentários dela, viraram livro sobre Filosofia e Terror.
BORRADORI, G. 2004. Filosofia em tempo de terror: diálogos com Habermas e Derrida. Trad. Roberto Muggiati. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 220 p.
[Interessados no assunto podem ler uma resenha desse livro, ao final deste post. ]


Uma dica: nem Habermas, nem Derrida concordaram com essa entificação da palavra “terror” e muito menos com a onda toda em torno de um dia como se fosse uma coisa, anunciada por um artigo definido: “o onze de setembro”, o “nine eleven” ou coisa assim. Para quê transformar o “outro” em um demônio? Que outro estranho é esse que fala inglês e aprende pilotar Boeings nos EUA?


Imprensa séria nem mesmo adotaria o slogan norte-americano de “guerra ao terror”,
pois isso já é parte da campanha à qual não deveríamos aderir tão descuidadamente.

Enfim, nada de fumaça aqui hoje, pois o céu do cerrado já está seco demais.
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 E a filosofia, que não se ocupa mais de astronomia e mistérios, pode sim torcer pela próxima chuva e pelos tempos bons: good times and good weather.
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[Onze fotos originais feitas no cerrado do Brasil Central
 em agosto e setembro, inclusive neste dia onze, de dois mil e onze.]
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Parece que há problemas no acesso aos números anteriores da revista Filosofia Unisinos e, por isso, transcrevemos aqui a referida resenha:


Resenha publicada na revista Filosofia Unisinos (vol. 8, nº 3, 2007)

BORRADORI, G. Filosofia em tempos de terror: diálogos com Habermas e Derrida. Trad. Roberto Muggiati. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004.


            Dois anos depois dos ataques às Torres Gêmeas, o livro ficou pronto. Não se trata, portanto, de mais uma reportagem; o livro de Giovanna Borradori é um trabalho sério e demorado, a partir de duas longas entrevistas motivadas por sua perplexidade diante daqueles acontecimentos assustadores no dia 11 de setembro de 2001. Em meio a tantas declarações e imagens das torres em chamas, Giovanna lembrou-se de que Habermas e Derrida estariam pouco depois em Nova York. Entrevistou ambos, separadamente, e em seguida redigiu uma análise das falas de Habermas e Derrida – “Reconstruindo o terror” e “Desconstruindo o terror” –, respectivamente. A seção introdutória, “Terrorismo e o legado do Iluminismo”, prepara o leitor e demarca as contribuições dos dois filósofos sobre tema tão complexo e urgente.
            A análise de Giovanna lembra as diferenças entre os dois filósofos: “Habermas acusa essa geração de pensadores, inclusive Derrida, de não atribuir o devido respeito à conotação política da modernidade: uma convocação universalista para a liberdade e a igualdade que não pode ser relativizada de forma alguma” (p. 90) Muito importante aproximar os dois – e é, por isso, muito oportuno o livro, pois acima de quadros categoriais diferentes, ambos se comprometem com conseqüências normativas para a Europa e o mundo todo. Em 2003, aliás, por ocasião da retomada dos ataques de Bush ao povo do Iraque, Habermas e Derrida, ao lado de Rorty e alguns outros intelectuais, participaram de um esforço conjunto na grande imprensa contra o imperialismo.
            Sobre a guerra no Iraque, em sua primeira ofensiva, já havia Habermas emitido seu parecer crítico de que a guerra seria justificada, embora não fosse justa. Ele tem sido um defensor entusiasta da Europa, bem como da ONU. Essa sua militância decorre da defesa intransigente da universalidade da democracia, que não é uma forma cultural relativa. (p. 84-85) Apesar de afirmar que os pilotos improvisados não dispunham de nenhum plano ou valor político, Habermas reprova o uso da expressão “guerra contra o terror”, que passou a identificar o contra-ataque ianque indiscriminado, que, em vários casos, é um ataque disfarçado, como sempre.
            A autora, ao entrevistar os dois filósofos, insistiu muito para que ambos admitissem que “o 11 de setembro” passava a demarcar uma nova fase na história universal. Ambos pediram-lhe cautela, pois só um prazo mais estendido poderia testar a relevância e os desdobramentos do lamentável episódio. Derrida estranha a tática de antepor um artigo definido a um substantivo: “o onze de setembro”. Como entender essa personificação, a criação de um dia como entidade autônoma?
            Em vez de investir na grandiloqüência de uma data-símbolo, de um novo divisor retardado para o século XXI, tanto Derrida como Habermas preferiram definir o acontecimento nos termos de suas teorias. Habermas afirma, então, que “terror é patologia da comunicação” (p. 76). Os ataques terroristas são, portanto, um caso de violência sem propósito, de agentes sociais que não se incluem nas relações simétricas da comunicação. Todavia, de alguma maneira, os ataques terroristas em Nova York constituíram um acontecimento histórico de novo tipo, devido à cobertura do evento pela mídia e pelas pessoas comuns, que fotografavam os prédios.
            Por sua vez, Derrida dedicou longos minutos – que resultaram em generosas cinqüenta páginas – para recolocar questões e analisar nossos cacoetes de linguagem, como esta compulsão a nomear e a repetir: “Um acontecimento maior deveria ser tão imprevisível e irruptivo que perturba até mesmo o horizonte do conceito ou da essência com base na qual acreditamos que reconhecemos um acontecimento como tal” (p. 100)
            Mesmo para uma filósofa profissional, não deve ter sido fácil conduzir a escorregadia conversa com Derrida – a que ela se referiu no prefácio com a bela imagem de “uma estrada mais longa e tortuosa, que se abre imprevistamente para amplas paisagens e canyons estreitos, alguns tão profundos que o leito permanece longe da vista” (p. 10). Giovanna parece perder a conhecida paciência de sua categoria profissional e propõe uma retomada, ao restabelecer a pergunta: “Seja ou não um acontecimento de importância maior, que papel pode ter 11 de setembro para a filosofia? Pode a filosofia ajudar a entender o que aconteceu?” A sábia resposta de Derrida reverte sobre o importante papel crítico da filosofia, que não deve aceitar em seu “cochilo dogmático” os parâmetros “da mídia e da retórica oficial”, como os embutidos nos conceitos de “guerra” e de “terrorismo”.
            A resposta de Derrida sobre o perfil dos terroristas vem, finalmente, no melhor enquadramento: eles não são “outros” absolutos, que nós “ocidentais” não conseguimos entender (p. 125); eles foram freqüentemente recrutados, treinados e armados por potências do “Ocidente”, distinção geopolítica que também precisa ser revista.
            Giovanna demonstra grande conhecimento dos autores, de modo que o livro vale como uma exposição da obra dos dois, dentro dos parâmetros que estabelecem um fio condutor entre o episódio motivador do livro e algumas obras pertinentes deles. A competência e seriedade da autora são notáveis, pois, por mais que tenha estado chocada pela experiência do terror em sua própria cidade, não distorceu as respostas dos entrevistados para apoiar suas teses um pouco fortes sobre os atentados. Ela certamente insistiu quanto ao caráter espetacular “do 11 de setembro”, e isso era compreensível para os entrevistados, em respeito à dor das vítimas.
            Seria possível melhorar o texto da edição brasileira, com algumas poucas revisões. Por exemplo, alguns termos da obra de Habermas – e de ciências que ele incluiu em suas reconstruções – já se consagraram em traduções para o português e caberia conferi-los. Por exemplo, deve-se utilizar “lingüística gerativa”, e não “generativa”. Seria bom conferir também os títulos de obras em português, que não deveriam ser simplesmente traduzidos diretamente do inglês, língua principal de referência da autora, que vive nos EUA. Por exemplo, a grande obra de Habermas, Faktizität und Geltung, recebeu nos EUA o título de Between facts and norms, mas não equivale ao título adotado no Brasil, que é Direito e democracia. Esse equívoco pode ter acontecido também com obras de Derrida, que conheço menos. Há também raros problemas do editor automático do processador de textos, que transforma “an” – artigo em inglês, preposição em alemão – em “na” (nota 42, p. 191). Coisas simples, afinal, em um livro que certamente merecerá ser reeditado.

Prof. Dr. Bento Itamar Borges
UFU – Uberlândia MG