sábado, 6 de junho de 2026

HABERMAS - MINHA HOMENAGEM PÓSTUMA

Verbete  "Habermas" de minha autoria para o

DICIONÁRIO DE FILOSOFIA POLÍTICA 

Editora Unisinos, 2010, 534 páginas, ISBN: 9788574313634 

HABERMAS, 1929-2026 

Jürgen Habermas nasceu em Düsseldorf, Alemanha, e realizou seus estudos universitários em Göttingen, Zurique e Bonn. Em 1954, doutorou-se com uma tese sobre Schelling: O absoluto e a história. Entre 1956 e 1959, foi assistente de Theodor Adorno, no Instituto de Pesquisa Social, da Universidade de Frankfurt. Sob a orientação de Abendroth, em Marburg, concluiu em 1961 sua tese de Habilitation, sobre a esfera pública, publicada no ano seguinte. 

De 1961 a 1964, lecionou filosofia em Heidelberg e, em seguida, em Frankfurt, até 1971. No Instituto Max-Planck, em Starnberg, dirigiu uma pesquisa sobre as condições de vida no mundo da ciência e da técnica. Por fim, trabalhou em Frankfurt como professor de filosofia entre 1983 e 1994, ano em que se aposentou. Habermas foi professor-visitante e conferencista em diversas universidades, recebeu inúmeros títulos e prêmios acadêmicos, com obras traduzidas para diversas línguas. Sua onipresença no cenário intelectual contemporâneo é ilustrada, por exemplo, por um livro de Rüdiger Bubner em que Habermas é figura central nos três capítulos, que versam sobre “Fenomenologia e Hermenêutica”, “Filosofia da linguagem e teoria da ciência” e “Dialética e filosofia prática”. 

Sua extensa obra, ainda em andamento, pode ser demarcada em duas fases, cujo marco divisório é a troca de paradigmas efetuada com sua bem fundada versão do giro lingüístico, preparada nos anos setenta. Todavia, é relevante também notar que há uma clara continuidade entre sua tese sobre a esfera pública e sua obra mais densa e influente, Direito e democracia – entre 1961 e 1992, Habermas manteve uma linha de pesquisa e debates que contempla as mais sérias preocupações epistemológicas e os firmes compromissos políticos de sua geração. 

A extensa obra de Habermas combina teoria política e filosofia; seu biógrafo Detlef Horster reconhece que a democracia é a pressuposição necessária para a compreensão de sua teoria do direito, bem como de sua teoria moral. Horster lembra momentos de sua própria vida de estudante, quando foi convencido pelas duras críticas de Habermas ao movimento estudantil, em 1961 e 1969, quando criticou o ativismo e o irracionalismo daquela “revolução aparente” fomentada por estudantes e igualmente deplorada por seu mestre Adorno. 

Além de dedicar-se na academia a “produzir racionalidade” para os tempos atuais, Habermas também enfrenta temas graves de nosso tempo, como a Guerra no Iraque, nas duas ofensivas, em 1991 e em 2003. Nesta segunda ocasião, ao final de maio, Habermas convidou influentes intelectuais da Europa, tais como Derrida, Umberto Eco, Hobsbawm, Savater, bem como o norte-americano Rorty para uma declaração conjunta na imprensa mundial a favor de uma política externa que valorizasse a Europa, como contraponto ao imperialismo norte-americano. Sua participação no debate público pauta-se, todavia, por extrema cautela e por um desejo incansável de diálogo, sem referendar nem mesmo o slogan que a mídia queria então criar ao assumir a existência de um “terrorismo internacional”, em que os muçulmanos encarnassem o “outro” demonizado. 

Doutrina política e filosofia social 

O jovem Habermas, em um conferência de 1961, proferida em Marburgo, investia na conciliação de teoria e prática pela via da reflexão epistemológica. A filosofia da história teria ainda algum papel na compreensão e na previsão de conseqüências de decisões políticas, mas essa compreensão, que levaria do ensino à prática dos cidadãos, não poderia ser obtida com os rigorosos princípios científicos que tinham atraído Hobbes. 

No ensaio “Direito natural e revolução”, também publicado em Theorie und Praxis, sua análise da Revolução Francesa não referenda o papel vanguardista de filósofos iluminados, pois foi antes o senso-comum que conduziu a luta pela independência na colônia norte-americana. A tradição que, desde Aristóteles, via a política como parte da filosofia prática foi abalada pelas pretensões da ciência experimental moderna e perdeu espaço para as ciências sociais e as disciplinas do direito. Hobbes, em meados do século XVII, executou com rigor científico o que já tinha sido previsto pelos revolucionários modos de pensar de Maquiavel e de Morus. 

O modo moderno passa a compor uma filosofia social cientificamente fundada, apta a enunciar as corretas condições da ordem estatal e social. Em vez do exercício das virtudes, entra em cena a regulação técnica do trato social. Morus, com sua ilha utópica, e Maquiavel, com seus conselhos pragmáticos, procuram responder aos dois grandes riscos de uma nação: a fome e a invasão por inimigos externos. Hobbes, por sua vez, diante do terceiro risco, o dos inimigos internos, com a guerra civil, superará as limitações dos antecessores, ao ocupar-se da construção sistemática da soberania conforme ao direito natural, pois, na Inglaterra do século XVII a afirmação da soberania estatal dependerá de um contrato social.
 
Esfera pública 

A tese de Habermas sobre a esfera pública procede cuidadosamente como estudo histórico-sociológico de uma categoria típica de sociedades burguesas na Europa do século XVIII. A origem da opinião pública foi a convivência de burgueses – proprietários de mercadorias ou intelectuais – em espaços públicos, que aos poucos foram se desgarrando da arquitetura modelada pelo palácio, em torno de salões e saraus, rumo aos cafés e clubes de homens de negócios, que surgiram na França, Inglaterra e, um pouco depois, na Alemanha. 

A esfera da publicidade, interessada no mercado e na cidade, descolou-se da intimidade da família burguesa e organizou-se, a partir dos interesses econômicos da nova classe. Com a proliferação desses pontos de encontro para a “boa conversa”, alguns jornais ou panfletos passaram a dar unidade a linhagens de mentalidade política e interesses corporativos. A imprensa tornou-se ela mesma um novo negócio que, de início, publicava cartas comerciais e notícias sobre perspectivas de preços de matérias-primas e de mercadorias. 

Com o tempo, à medida que a esfera pública burguesa conquistava espaço no poder político representativo, implantaram-se as seções de artigos científicos, e editoriais de análise política. Por fim, os jornais inseriram repórteres dentro do parlamento, para acompanhar o debate político. Eis, portanto, o sentido da tese de Habermas, enunciada no título: a alegada “mudança estrutural da esfera pública” significa a prevalência da imprensa sobre os cafés, no papel de formação e veiculação da opinião pública, que se torna um princípio de organização dos Estados de Direito burgueses.

Trinta anos depois dessa arqueologia dos fundamentos da organização política burguesa, Habermas retoma o tratamento da esfera pública em perspectiva mais sistemática e com intenções normativas: em Direito e democracia, esse conceito – devidamente redimensionado para caber no paradigma discursivo – continua central no quadro categorial de uma teoria social que veio desaguar na defesa intransigente da democracia. Em Direito e democracia, a esfera pública é apresentada como uma “uma estrutura comunicacional do agir orientado pelo entendimento, a qual tem a ver com o espaço social gerado no agir comunicativo”, [vol. II, p. 92] que não se especializa em nenhuma das direções dos temas oriundos daquele “reservatório para interações simples”, que é o mundo da vida; a esfera pública deixa a cargo do sistema político a elaboração especializada. 

Assim também, a esfera pública se distingue da sociedade civil, na medida em que não se institucionaliza em entidades nem em interesses particulares ou corporativos. Citando Parsons, Habermas acrescenta que “na esfera pública luta-se por influência” e essa é uma das conexões teóricas para sua inclusão na “esfera pública política”: “os problemas tematizados na esfera pública política transparecem inicialmente na pressão social exercida pelo sofrimento que se reflete no espelho de experiências pessoais de vida. E, na medida em que essas experiências encontram sua expressão nas linguagens da religião, da arte e da literatura, a esfera pública ‘literária’, especializada na articulação e na descoberta do mundo, entrelaça-se com a política”. [vol. II, p. 97] 

Legitimidade e legitimação

Na obra em que reconstrói o materialismo histórico, Habermas indica que “legitimidade significa que um ordenamento político é digno de ser reconhecido” como justo e equânime. A legitimidade é, portanto, uma alta expectativa de validade, que envolve grandes grupos, e que se restringe a sociedades organizadas sob a forma de Estado. A busca de consenso, que inspira os procedimentos discursivos da legitimação deixa margem para a crítica, pois a legitimidade é uma “exigência de validade contestável”. 

Habermas debateu essa questão com Niklas Luhmann, contrapondo-se à abordagem sistêmica e à ideologia da tecnocracia que queriam, respectivamente, rebaixar a exigência de legitimidade à mera legalidade dos ordenamentos políticos, bem como aplicar o argumento da complexidade em prejuízo da formação pública da vontade e do exercício da democracia. 

O Estado, na fase atual do capitalismo tardio, sofre uma crise de legitimação, embora possa dispor de inúmeros mecanismos para gerenciar as tendências de crise, transferindo-as de um subsistema a outro, até que chegue a seu limite sistêmico: não se pode produzir sentido por decreto. Habermas passa da análise ao discurso normativo, quando assume que seu esforço teórico deve conduzir à defesa da democracia, mediante a construção da legitimação, o que extrapola o mero roteiro do procedimento, pois “só vale como legítimo o direito que conseguiu aceitação racional por parte de todos os membros do direito, numa formação discursiva da opinião e da vontade”. [Direito e democracia, vol. I, p. 172] 

Habermas recupera o entusiasmo e o compromisso com “valores da civilização”, tais como o Estado democrático de direito. Torna-se necessário dar uma direção aos ordenamentos jurídicos e políticos, pois, se mantido apenas formalmente, “o Estado de direito e o Estado social são possíveis sem que haja democracia”. [p. 109] Ora, o novo paradigma resolve a conexão problemática de liberdade privada e autonomia do cidadão; com ele ficará claro que autonomia pública e privada, bem como direitos humanos e soberania popular se pressupõem mutuamente.

Racionalidade e crítica do pós-modernismo 

Um dos motivos que levaram Habermas a se afastar da primeira geração da Teoria Crítica é a constatação de um déficit de racionalidade na sua Ideologiekritik, entendida enquanto crítica da ideologia dominante. Habermas apresentou a própria teoria crítica como deficitária. Desde Conhecimento e interesse (1968), ele afirma que a postura da crítica da ideologia não é mais suficiente para demonstrar os padrões críticos da teoria da sociedade, ou seja, há uma incapacidade epistemológica na crítica da ideologia para compor a teoria da racionalidade exigida por uma teoria social que se proponha a diagnosticar as patologias sócio-econômicas da atualidade. Ali, a própria noção pejorativa de ideologia foi substituída pela categoria interesse, que supõe uma dimensão constitutiva da emancipação da espécie. 

Ao procurar produzir racionalidade, Habermas enveredou-se pelo projeto de dar à teoria crítica uma nova fundamentação, que evitasse os paradoxos das abordagens contextualistas, aquelas em que uma teoria crítica da sociedade é endereçada a um grupo de agentes específico, historicamente situado, o que abre possibilidades para o relativismo e o ceticismo. Nesse contexto, não lhe bastou defender o “projeto inacabado” do racionalismo moderno; Habermas pôs-se a identificar e a combater os neo-conservadores que se fizeram ideólogos do Pós-modernismo, entre os quais incluiu até mesmo seus mestres Adorno e Horkheimer: a Dialética do Esclarecimento, composta por esta dupla, teria um efeito remitologizante. 

Lyotard, um dos interlocutores visados nas conferências da coletânea Discurso filosófico da modernidade, deu uma definição de “moderno”, na qual Habermas se encaixa perfeitamente: moderno é quem ainda acredita em grandes discursos, como “emancipação do gênero humano”. Princípio do Discurso O “princípio D”, de discurso, que concentra toda a força argumentativa de Habermas, é o seguinte: “São válidas as normas de ação às quais todos os possíveis atingidos poderiam dar o seu assentimento, na qualidade de participantes de discursos racionais” [Direito e democracia, vol.I, p. 142], entendendo-se por “discurso racional” toda tentativa de entendimento sobre pretensões de validade problemáticas. O discurso, assim entendido, permite temas e contribuições livremente movimentados no espaço público. 

Esse princípio, mesmo ao lado da forma jurídica das relações interativas, não é ainda suficiente para fundamentar qualquer direito. “O princípio do discurso só pode assumir a figura de um princípio da democracia, se estiver interligado com o médium do direito, formando um sistema de direitos que coloca a autonomia pública numa relação de pressuposição recíproca”.[Direito e democracia, vol. II, p. 165] Democracia Habermas analisou diversas teorias, inclusive sociológicas, sobre modelos de política deliberativa, sem descartar sua base empírica, que ele eventualmente resume com as expressões “sociedades acostumadas com a liberdade” ou “sociedades desenvolvidas”. 

A teoria do discurso assimila elementos liberais e republicanos, para integrá-los no conceito de um procedimento ideal para a deliberação e a tomada de decisão, convencida de que é possível chegar a resultados racionais eqüitativos. A razão prática passa dos direitos humanos universais para as regras do discurso e as formas de argumentação, que extraem seu conteúdo normativo da base de validade do agir orientado pelo entendimento. Na teoria do discurso, a política deliberativa depende da institucionalização, pelo Estado, dos correspondentes processos e pressupostos de comunicação.

Em vez dos clássicos paradoxos alimentados pela superada filosofia da consciência, em torno de modelos apoiados em sujeitos privados e particulares, a teoria do discurso “conta com a intersubjetividade de processos de entendimento”, que se realizam através de procedimentos democráticos ou na rede comunicacional de esferas públicas políticas. Aqui, a sociedade civil – base social de esferas públicas autônomas – distingue-se tanto do sistema econômico (mercado) quanto da administração pública. E daí vem uma mudança de pesos nas relações entre dinheiro, poder administrativo e solidariedade, que satisfazem, na sociedade moderna, as necessidades de integração e regulação. 

Obras 

Theorie und Praxis: Sozialphilosophischen Studien. Frankfurt sobre o Meno, Suhrkamp, 1988 (Luchterhand,1963) [Teoria y práxis: ensayos de filosofia social. Buenos Aires, Sur, 1966]; Strukturwandel der Öffentlichkeit. Darmstadt, Luchterhand, 1962 [Mudança estrutural da esfera pública. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1984]; Faktizität und Geltung. Frankfurt sobre o Meno, Suhrkamp, 1992 [Direito e democracia. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1997, 2 vol.]; Erkenntnis und Interesse. Frankfurt sobre o Meno, Suhrkamp, 1968 [Conhecimento e interesse. Rio de Janeiro, Zahar, 1982; Zur Rekonstruktion des historischen Materialismus. Frankfurt sobre o Meno, Suhrkamp, 1976. [Para a reconstrução do materialismo histórico. São Paulo, Brasiliense, 1983]; Der philosophische Diskurs der Moderne. Frankfurt sobre o Meno, Suhrkamp, 1985 [O discurso filosófico da modernidade. Lisboa, Dom Quixote, 1990]; Die Einbeziehung des Anderen – Studien zur politischen Theorie. Frankfurt sobre o Meno, Suhrkamp, 1996 [A inclusão do outro – estudos de teoria política. São Paulo, Loyola, 2004] 

Referências bibliográficas

 BUBNER, Rüdiger. La filosofia alemana contemporanea. Madri, Cátedra, 1984 (Cambridge, 1981); HORSTER, Detlef. Jürgen Habermas zur Einführung. Hamburg, Junius, 1999; BORGES, Bento Itamar. A fundamentação discursiva da teoria crítica em Habermas. Porto Alegre, UFRGS, 1986, mimeo.; BORGES, Bento Itamar. Crítica e teorias da crise. Porto Alegre, EDIPUCRS, 2004; SOUSA, José Crisóstomo de. (org.) Filosofia, racionalidade, democracia: os debates Rorty & Habermas. São Paulo, UNESP, 2005; BORRADORI, G. Filosofia em tempos de terror: diálogos com Habermas e Derrida. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004. 

Verbetes correlatos: Democracia; Direito; Escola de Frankfurt; Estado 

Bento Itamar Borges Doutor em Filosofia pela UFMG, Pós-doutorado pela PUCRS, Professor Associado I do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Uberlândia, Minas Gerais.

domingo, 21 de dezembro de 2025

MÍSTICA EM HENRI BERGSON

 

 

Comentários à dissertação de Ciro Amaro[1]

 


 

Anedota ilustrada, à guisa de epígrafe:

“Eis que eu passeava em sossego

pela Quinta Avenida de NY,

quando vi essa placa de refinada

rotisseria francesa, com finos biscoitos,

e me lembrei da mística de Bergson

e da dissertação de Ciro Amaro.”

(B. Borges, agosto de 2025)

 

Este texto poderia ser uma carta pessoal e não chega a ser uma resenha, pois não foi encomendada por um periódico. Todavia, não é a primeira vez que me ocupo – com prazer – de divulgar um texto ainda inédito, pelo menos em versão impressa. Publiquei uma resenha padrão de um livro de Ian Hacking, ainda não traduzido para o português, à altura. E creio que tal gênero acadêmico cumpriu o papel de divulgar as ideias e, quem sabe, incentivar a divulgação da dita obra em nossa língua.

No caso da dissertação de Ciro Amaro, o que se segue é o registro de um capítulo de nossas conversas, desde a época em que ele foi aluno da graduação em filosofia, na UFU. E sempre conversávamos na sala do café e nas reuniões de departamento. Ele sempre foi, além dos conteúdos da filosofia, um grande leitor de temas da política, da história, geopolítica, bem como um conhecedor da história da Igreja e dos rituais e instituições do Vaticano.

Ao longo das 160 páginas da monografia, que li com atenção e curiosidade, aprendi muito sobre Bergson.  Aos poucos, fui reconhecendo temas e debates da filosofia no século XX e, como eu supunha, pude rever algumas querelas da filosofia especulativa continental e da filosofia analítica em termos da novidade do vitalismo e da abordagem que admite a intuição como via do conhecimento e da compreensão mútua.

Mas, repito, aprendi muito com essa leitura, pois nunca havia lido demoradamente nenhuma obra inteira de Bergson. Durante minha formação, minha atividade docente e minhas pesquisas de pós-graduação, simplesmente nos desencontramos, Bergson e eu. Recentemente, após me aposentar, passei a ler autores e sobre autores diversos, que me faziam falta, de modo que o texto acadêmico aqui considerado contribui para essa “formação continuada” de minha pessoa e de meu repertório. Por exemplo, li as páginas encantadoras de Bachelard e o incrível livro A visão de Deus.  Não por coincidência, presenteei recentemente Ciro Amaro com o exemplar da bem cuidada edição dessa surpreendente obra de Nicolau de Cusa, pela editora Calouste Gulbenkian.  

Foi uma grata surpresa saber, através dessa dissertação, que Bergson foi agraciado com um prêmio Nobel de...literatura. Deixarei para comentar depois sobre a pertinência e a ocasião histórica dessa conquista duradoura para o nosso campo, a filosofia.

Este texto – que poderia ser mais uma boa e longa conversa com o novo  mestre, na sala de nosso verdadeiro cafezinho “filosófico” –  é um singelo e despretensioso apanhado de notas de leitura e emparelhamento de autores e temas, que deixarei listados a seguir, sem me preocupar com ordem ou sistemas. Mas, mesmo que eventualmente alguma passagem se pareça com aquela livre associação entre fulano e beltrano, defendo a abordagem que parte das afinidades e que traduz uma terminologia em outra, sem reduzi-las. Pois creio e professo que a filosofia só sobrevive no modo humilde, de quem conversa com as ciências diversas e as variadas artes.  



INTRODUÇÃO

É muito animador constatar que o recuo histórico ocupa apenas cinco linhas e logo se vê o leitor no campo semântico, cercado de temas e balizas para a viagem que o aguarda. Esse vocabulário, carregado de termos de certa psicologia das sensações já abre caminho para as emoções e a experiencia estética em sentido amplo e generoso: contemplação, angústia, mistério, oculto, consciência. Mas esse palavreado ganha carne ao ser remetido ao contexto da vida, da gênese vital, onde se dá o embate entre matéria e espírito.

A primeira citação de um trecho de Bergson já o caracteriza e distingue bem, pois a dualidade acima referida – e que serve de desculpas para inibir o desvelamento – é traduzida em outros termos (“consciência e materialidade”), elevando  o nível da conversa. Mais que isso, há um grande avanço na reflexão desse pensador e militante francês, expresso na noção de “arranjo” entre as duas formas – dentro de um modus vivendi – e isso é já uma alternativa às doutrinas e sistemas que pressupõem uma conciliação.

Em outros contextos e outras intenções – todavia na mesma metade de século – também Wittgenstein e Gadamer se valeram de categorias parecidas, sob o termo “jogo”. E isso situa Bergson também como inovador filósofo capaz de uma teoria da ação, visto que “a mística é um processo de criação, cujo método intuitivo de acesso se dá a partir da experiência do místico e do seu agir no mundo” (p. 12, aqui e adiante remete-se à dissertação em apreço). E, em termos de composição do argumento, eis que já fica assim planteada a tese que reúne mística e intuição.

E, de novo, procede o lance brusco, pois também o engenheiro austríaco, autor do Tractatus Logico-philosophicus entrou de sola e sem avisar com mais um versículo em staccato, como alguém observou:  há por certo o inefável. Isso se mostra, é o místico” (TLP-6.522) E isso, sem escandalizar quem aponta contradições internas, nos ajuda a... não nos calarmos diante do que não se pode falar.

 PRIMEIRA PARTE : VIDA DE BERGSON E NOÇÔES PRINCIPAIS USADAS POR ELE

O primeiro capítulo da dissertação traça rapidamente um panorama das transformações sociais na Europa desde meados do século XIX até inícios do seguinte. A ciência, a técnica, a guerra e outros negócios marcaram essa época, bem como a psicologia – que abriria um novo mundo também para as ideias e abordagens de homem e humanidade.

E foi, segundo li, justamente aí que entrou Bergson como “um novo pensador” para investigar justamente o homem e sua presença no mundo da vida. Adianto já, com entusiasmo, que esse conceito será retomado por Habermas, na linha alemã, como Lebenswelt, por oposição ao sistema. E não concordo com a tradução alternativa – mundo vivido – pois a disciplina de fundo não é a história nem o particípio passado... O vitalismo mira adiante e pode inspirar uma teoria da ação, penso eu, e creio que não fujo das teses de Amaro.

Bergson é um desses raros autores, cujo quadro categorial foi relativamente assumido pela linguagem acadêmico e artística. Por exemplo, a expressão “elã vital”, tão cara à teologia progressista, por exemplo. Eu mesmo aplicava essa bela imagem dinâmica, sem saber que era um dos fundamentos desse autor francês.

As distinções deixadas por Bergson são geniais e úteis, além de “intuitivas”, se me permitem antecipar a espinha dorsal do texto que comento. Por exemplo, o conhecimento cientifico analisa e resulta da análise, ao passo que  a intuição é o que convém aos temas e problemas metafísicos. Mas, antes, nesse mundo dado dos “sólidos”, precede a distinção entre inteligência e instinto – e é claro que nos misturamos com ambas capacidades animais e espirituais aí implicadas.

Ora, a tese forte já se apresenta logo como “a inteligência não consegue abarcar a coisa viva” (p. 24), pois fica por fora, rodeando a coisa mas sem poder captar o movimento mesmo.

Voltando à provocação de nossa estranha epígrafe acima, eis que Amaro escreva sem nos enrolar com preâmbulos: “O real dura e a duração do real é a única constante da existência” (p. 25) e com isso escapamos da mistificação, que é o recurso da retórica, por meio do desvio e da linguagem figurada. Mas, logo nos deparamos nessa leitura com uma ressalva, para não recairmos no positivismo enganoso: a duração não se mede pelo relógio ou máquinas; participamos dela “através de uma multiplicidade de estados internos” que, por sua vez, não podem ser deturpados nem reduzidos pela espacialização. Creio que Kant gostaria de ver aonde chegaram suas noções de espaço e tempo, enquanto condições de possiblidade de todo o conhecimento, na estética transcendental...

Virtudes do texto de Amaro. Pois já é, de início, notória a capacidade de exposição de Amaro, que, sem dúvida, foi bem orientado em seu mestrado. O texto amarra muito bem uma seção à seguinte e isso harmoniza bem com a maneira direta de entrar nos subtemas, sem circunlóquios e desvios e promessa.

Por exemplo a sessão “1. 4 Intuição” começa por apresentá-la como o elo entre “todas as temáticas trabalhadas por ele [Bergson] ao longo de sua vida e obra”, ou seja, como decorrência de sua “nova filosofia, mediante uma nova metafísica”.

Muito oportunas as considerações sobre “tradução”, ao para se satisfazer com as aporias de sua impossibilidade, que tanto agradam a céticos e analíticos; Amaro utiliza-se dessa crítica (em jargão popular, poderíamos aqui no
Brasil dizer que a ciência troca seis por meia dúzia ou apenas diz em grego os nomes de nossas dores e ossos) para mostrar mais uma vez como Bergson mostrou os limites da ciência, esse “meio muito restrito de conhecer”. (p. 29)

A defesa da metafísica em Bergson, conforme a expõe Amaro, é bastante simpática e capaz de dialogar com as novas disciplinas e visões de vanguarda: não se trata das coisas e entes, mas sobretudo do movimento. E para isso encontra Bergson apoio tão genuíno e original quanto o antigo Zenão de Eléia: uma metafísica que contemple o fluxo, no alcance da duração (p.31).

Ora, essa imagem (dialética) do fluxo aparece na obra de Walter Benjamin, como “turbilhão” – e é com esse termo que ele fala sobre a origem da obra de arte; não no sentido histórico, cronológico. Como não temos tempo aqui para conferir as datas dos textos de Bergson e de Benjamin, mas podemos resolver isso de maneira elegante: ambos tiveram a mesma... intuição.

 

Não se pode, todavia, permanecer nessa imagem vertiginosa. E Amaro nos faz entender, inclusive com a ajuda do português Martins, que os factos estejam submetidos à intuição, na função invertida: eles corrigem e completam “os dados da observação interior”. Sim, inversão em relação ao método hipotético-dedutivo, por exemplo, que parte das conjecturas. E é bom também acertar nossa leitura com um bom leitor de Kant. Deleuze, citado por Amaro, é categórico: “A intuição é o método do bergsonismo. A intuição não é um sentimento, nem uma inspiração (...) e tem suas regras estritas (...)” (p. 32)




 A segunda parte da dissertação propõe-se a apresentar o livro  As duas fontes da moral e da religião, mas logo no primeiro parágrafo já vai além dessa obra de 1932; Ciro Amaro é muito cuidadoso com a indicação das fontes e estabelece uma linha do tempo desde outro escrito influente, lançado em 1907: A evolução criadora. Naquele intervalo de vinte e cinco anos notam-se continuidade e novidade, sobretudo com a “inserção na duração através da intuição sob o aspecto da mística”. (p. 36) Um comentarista vê nessa sequência um salto da metafísica para as forças criadoras do homem na história.

Aliás, o próprio autor Bergson declarou por ocasião do lançamento de As duas fontes..., em 1932: “tento introduzir o misticismo na filosofia como processo de pesquisa filosófica”. (p. 37)

Há na dissertação uma seção para avaliar o recurso didático da dualidade em Bergson. E também temos uma ilustração do impacto de uma figura inspirada, além de seus escritos, que atraía “seu público nas suas aulas”. Uma filósofa deixou seu testemunho de como os ouvintes ficavam “suspensos à sua palavra eloquente e precisa”, pois a fala de Bergson tinha o impacto semelhante ao da música, além de impressionar com frases do apóstolo Paulo sobre o absoluto no qual nos movemos. (p.40)

O texto amarra conceitos da moral, como obrigação, hábito, obediência e não passa ao largo das analogias esperadas de uma vertente vitalista, ou seja, a relação entre natureza e sociedade – inclusive com ilustrações oportunas de formigas e formigueiros. Resultado: o homem é um ser vivo e a humanidade é um organismo... social. E a vida do homem no mundo é “uma enorme rede ou teia”.

A distinção vem logo em seguida, após essa bela imagem: as sociedades primitivas eram fechadas, por sua relação com o instinto (social) – tema que não me cabe desenvolver aqui. Todavia, posso destacar a contribuição de um comentarista: “A moral da sociedade fechada é conformista, impessoal e estática. Baseia-se no costume e no preconceito. Cria tabus e afoga a liberdade”. (p. 53)

A “sociedade aberta” é também mais ampla, pois “nos revela como membros de uma comunidade global”. E a construção dessa doutrina [termo meu] tem data, 1789, com as proposições da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. E Bergson apela a uma bela imagem “não-linear”: tivemos que dar um salto. Pois não é uma diferença de grau, mas uma mudança qualitativa. Na sociedade aberta, vigora “outra moral, é o outro o gênero da obrigação, que vem superpor-se à pressão social”. (p. 55)

No que se segue, percebi uma boa convergência entre Bergson e a noção de “razão instrumental” em Habermas. E comemorei com lápis sobre a xerox ao ver um autor que sempre recomendei a todos os estudantes universitários: Thomas S. Kuhn. Pois é disso que se tratava, trinta anos, em Bergson: mudança de paradigma. Pontos adicionais a Mestre Ciro Amaro.

A dissertação nos ajuda também a corrigir equívocos que talvez a leitura preconceituosa e corrida pudesse produzir, pois Bergson não esteve escrevendo um longo discurso homilético ou apologético do tipo que passa de uma esfera a outra, por truques de retórica. Não é suave a passagem da moral para a espiritualidade. E esse movimento não é um exercício acadêmico do racionalismo especulativo continental... Bergson, conforme essa recente dissertação, não se perde em regresso infinito nem circularidades. É antes a vida que funda a moral e a religião, tout court.

Pela altura da página 65, Ciro nos faz lembrar de um livro fabuloso: Homens representativos, de Ralph Waldo Emerson. E creio que Alasdair McIntyre também teria essa reação, pois “a moral absoluta que esses homens excepcionais possuem’ é um exemplo para a humanidade...

E só me resta, ainda longe de concluir, cumprir minha outra função com esta resenha, qual seja, a de motivar meu leitor a ler o que interessa: a dissertação por extenso e as obras referidas de Bergson e sobre ele. Para motivar tais candidatos a devorar o  “volumoso”, jogo um suspense: eu percebi um Saulo no meio do “exemplo” deixado no genérico Cristianismo e até me emocionei com a voz triste de Renato Russo, em seu último disco de capa amarela.

 


A terceira parte da dissertação recebe o adequado título “A mística e o que ela envolve”, pois o tema é envolvente e a experiência mais ainda. Todavia, o jornalismo e o folclore acadêmico podem também nos “envolver em confusões” e preconceitos. A nota 43 alerta contra a abordagem de caráter negativo, já insinuado no sufixo ismo. O certo seria falarmos de religião e mística, sem o desvio pejorativo de religiosidade e misticismo. Concordo com o programa de certa fenomenologia que pregou o retorno “às coisas mesmas” e, no caso, aos sentimentos e valores mesmos.

A esta altura da despretensiosa resenha, última parte, cabe de novo elogiar o texto de Amaro pelas ressalvas típicas de monografias: não nos propomos a esgotar o assunto; “não é algo fácil de definir” (p. 68) e alguma outra expressão do gênero. A regra geral mira o contexto da arguição e o protocolo da delimitação do tema, mas, em muitos casos – como é o da apresentação da obra de Bergson – o recurso mesmo da definição está sob suspeita. Como “definir” o infinito? E para que desenhar conceitos para quem já se entende com noções?

Admitimos – e aqui creio que falo por Amaro e por mim – que a experiência mística, tão próxima da experiência estética, como na fulguração ou na “fusão de horizontes”, é da esfera íntima e nem sempre passível de expressão verbal articulada. Por exemplo, para citar de novo Wittgenstein, o mais genuíno “juízo estético”, contrariando ou atualizando Kant, não é uma proposição protocolar, mas uma expressão facial, uma interjeição diante da beleza ou do susto: “oh!”. E também por isso, no campo da arte sacra, muitos santos e santas são representados em imagens de êxtase e distanciamento.

Em outros contextos do debate acadêmico, cabe a solução genial da “definição ostensiva”: eis um iceberg! Isto é uma tulipa! E creio que Santo Agostinho também forneceu argumentos sobre saber sobre algo mas não saber dizer a respeito.

Amaro amplia o campo de sua dissertação e das reflexões de Bergson ao citar a simbologia de Jung – “representações do transcendente” -, que enfrentou o cientificismo. E este texto acadêmico, defendido e aprovado em 2024, na UFU onde lecionei, muito me agrada e até emociona, ao citar Mircea Eliade, sobre o sagrado. Eu costumava apresentar em sala de aula a lista dos livros que eu não jogaria fora, de meu balão em chamas... Precioso lastro formado por livros de Gadamer, Thomas Kuhn, Eliade, Todorov e outros geniais pensadores.

Ora, voltando às considerações sobre o gênero aqui cultivado, estou ciente há alguns anos de que resenha está em extinção. E posso “intuir” que as novas gerações se satisfarão com os likes de leitores comuns ou se orientarão pela mera pressão do sucesso de mercado, ancorada pelo cálculo das máquinas de busca.

Mas não nos cabe profetizar e nem... dar spoilers. Assim, vou costurar rapidamente os últimos temas da dissertação de Amaro. O novo mestre passou com certa elegância de uma sessão a outra, mas não por uma contiguidade óbvia e natural. Antes, foi pela própria reflexão e interpretação de Bergson que essas categorias se mostraram interligadas: mística e religião; religião e religiosidade; mística como missão; mística e amor; mística e cristianismo e – por fim – mística e Filosofia.

Muitos filósofos evitariam o tema da mística e outros leriam Nicolau de Cusa e Mestre Eckhart como literatura ou sintoma de uma época. Outros temem a “contaminação” de seu pretenso sistema científico com tautologias e superstições. Todavia, com firmeza e escrita elegante, Amaro dribla todas essas distrações e mantém seu esperado ponto de chegada, pois foi no campo da filosofia que Bergson atuou e é lá, na filosofia, que esta dissertação bateu, ancorou-se. E tanto na dissertação quanto na plataforma da militância de Bergson, a motivação é humanista, no melhor sentido de uma certa teoria da ação.

O item “3.9 Mística e filosofia: uma metafísica, uma intuição, uma humanidade” não recai no vício racionalista formal, pois não recua para a exegese do uno e do todo, nem oscila numa dialética verbal... pois, conforme as últimas linhas do desenvolvimento desta dissertação esta “uma” é “a” humanidade. A mensagem de Bergson, sobretudo nas obras citadas, “não deixa de ser para nós uma luz na escuridão, um alento de esperança em tempos tão tumultuados em que vive a humanidade.” (p. 143)

 

Os temas ficaram tão bem desenvolvidos e amarrados que a Conclusão da dissertação se resolveu em pouco mais de duas páginas. E creio que a banca tenha permitido – como eu faço agora, fora do ritual da pós-graduação – que Ciro Amaro empregue um sinal de exclamação, pois Bergson o merece. “Bergson não foi um pensador francês, mas um filósofo da humanidade!” (p. 146)

Ora, Bergson fez mais que pensar e escrever; teve cargos públicos importantes, em organismos internacionais e se posicionou sobre temas graves. Creio que ele se parecesse um pouco com Bertrand Russell, do outro lado do Canal da Mancha, mas sem a simpatia nem a fé declarada em algo mais que a matemática. E, por essas e outras, Bergson recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. E o aceitou, ao contrário de outro francês anos depois.

Esse prêmio caiu-lhe bem e não foi por falta de bons romances no período avaliado pela Real Academia Sueca. O discurso oficial na cerimônia de entrega dessa honraria poderia adivinhar o efeito positivo que a intuição e o sonho viriam a ter para as artes em geral e para a literatura, em particular, nas décadas seguintes. E como tais recursos ajudariam a conhecer e melhorar a humanidade.

 

(Araraquara, 7 de dezembro de 2025)

 

 

 

 



[1] NASCIMENTO, Ciro Amaro Fernandes. A mística em Henri Bergson [recurso eletrônico], 2024. Orientador: Rubens Nunes Sobrinho, Dissertação (mestrado) Universidade Federal de Uberlândia, Pós-graduação em Filosofia. Disponível em: http://doi.org/10.14393/ufu.di.2023.639

quarta-feira, 23 de abril de 2025

69 É MANDALA: senilidade às favas

 Eu levei na farra as brincadeiras de parentes e amigos, eles e elas, sobre o número, a marca, o giro de girinos tipo "ing e yang", fractais minimalistas. Para complicar, algum Dworkin teorizaria ao conversar com seu porco-espinho de estimação: "sixty nine is the perfet image of kind of simultaneous equity..."

Se eu fosse uma pickup: FORD 1956, "flipnose"

O que li e o que bebi, para lembrar o livro do marido da médica - e olha que ela sempre desfilou de Jaguar na noite carioca, com alguns frascos de hepatovis na bolsa, etc. Livro do cartunistas do Pasquim: Confesso que bebi. Neruda se revira no túmulo, esperando um gole pra si e outro para o Santo Tiago. 




202

 ...na cola de outro Moisés, 

agora, com anexo aos “Dez mandamentos”

 

 

FILOSOFIAS DA VIDA VIVIDA:  Todos os vivos estão no grupo de risco. Viver é arriscado. Mas depois de uma epidemia, tenho que admitir: dá medo pegar uma terceira dengue ou bala perdida.  

 

Quanto tempo quero e espero viver? A pergunta ganha um novo sentido agora, quando entrei no terceiro terço dessa lifetime...

 

O que vier é lucro, sobrevida ou, como diz o Julio Cabrera, no seu intrigante livro de ética de cabeza pra bajo: Não-suicidas não são exatamente sobreviventes...

 

 

Aqui está uma tabela para animar os calouros da filosofia. Não se trata de medir QI e nem saber se você joga xadrez ou sabe falar de vinhos. O importante é viver muito.

 

E aqui cada um pode se situar em relação aos filósofos que já partiram deste mundo sublunar. O número à esquerda indica o quanto a figura viveu. A cada ano – se Deus lhe der vida e saúde – movimente uma casa para diante. E não cante vitória muito cedo, pois não há game over na eternidade.

 

Km 69. O filósofo do cerrado, que também acredita em geração espontânea, no éter e foi, sim, preceptor de Alexandre, seu irmão mais novo cinco anos, a quem ensinou golpes de capoeira e pesca de lambaris, está em 2025 na boa companhia de...?

  

Faça sua própria classificação. Veja como está seu ranking. Não custa nada. E não é o tipo de mensagem que precise passar adiante. Vá adiante você e não se enrole na vida!

Importante é manter-se vivo e tentar chegar aos 103 anos. Para isso, não precisa ser arquiteto de JK, mas sem dúvida a receita passa pela combinação de “verdad y método”.

 

Que bom poder ficar ao lado da bela Hannah... e reler seus perfis para tempos sombrios. Creio – enquanto aguardamos, hoje 23 de abril de 2025,  as exéquias do querido Papa Francisco – que ela o chamaria também de “um bom papa”.


E não se confundam nem se enganem.
A Daryl Hannah também está quase lá (cá) 
aos 64 - fumando ou não.


 

 A LISTA DO PRAZO DE VALIDADE

 (ver no fundo da lata)

...

29 NOVALISGeorg Philipp… (1772 - 1801)

38 LURIA, Isaac  (1534 - 1572)

40 LASK, Emil [1875-1915]

42 KIERKEGAARD, Søren Aabye - (18131855)

44 WHORF, Benjamin Lee (1897-1941)[1]

46 BAUDELAIRE[2], Charles. [1821- 1867]

47 LUXEMBURGO, Rosa de (1871-1919)

48 BENJAMIN, Walter [1892-1940)

49 AUSTIN - (Lancaster, 1911 - Oxford,  1960)

52 FICHTE, Johann Gottlieb [1762-1814]

53 MERLEAU-PONTY, Maurice (1908 - 1961)

54 DESCARTES, René (1596 - 1650)

56 NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm (1844 – 1900)

56 WEBER, Max [1864-1920]

58 FOUCAULT, Paul Michel (1926. – 1984)

58 MAQUIAVEL, Nicolau (1469 – 1527)

59 HERDER, Johann Gottfried von (1744 - 1803)

59 DURKHEIM, Emile. [1858-1917]

60 SIMMEL, Georg (1858-1918)

61 HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich [1770 – 1831]

62 ARISTÓTELES (384 a.C. - 322 a.C.)

62 WITTGENSTEIN, Ludwig Joseph Johann - (18891951)

63 ADORNO, Theodor (1903 – 1969)

65 BARTHES, Roland (19151980)

65 SAINT-SIMON, Conde de, (17601825)

66 KOJÈVE, ALEXANDRE (1902 - 1968)

68 HUMBOLDT, Friedrich Wilhelm Christian Karl Ferdinand (1767- 1835)

 

 

 

69 MAIMÔNIDES, Moisés: (1135-1204)

 

è 69 FILÓSOFO DO CERRADO (born in 1956, and counting…)

 

69 ARENDT, Hannah (1906-1975)

70 BRETON, Andre – (1896 – 1966)

70 LEIBNIZ, Gottfried (1646 - 1716)

71 LUHMANN, Niklas (19271998)

72 BOURDIEU, Pierre: (19302002)

72 SCHOPENHAUER, Arthur (1788 – 1860)

73 BAUER, Bruno (1809-1882)

73 HOLDERLIN – Johann Christian… (1770 – 1843)

73 KOSELLECK, Reinhardt [1923 – 2006]

74 DERRIDA, Jacques (19302004)

74 KUHN, Thomas S. (19221996)

74 LYOTARD, Jean Francois: (1924 —1998

75 PEIRCE, Charles Sanders (1839 - 1914)

75 SARTRE, Jean-Paul... (19051980)

75 ENGELS, Friedrich - (1820 - 1895)

75 MARX, Karl [1818, 1883)

76 RORTY, Richard: (1931 - 2007)

76 VICO, Giambattista (1668 - 1744)

77 FREGE, Friedrich…(1848 - 1925)

78 BACHELARD, Gaston (1884 - 1962)

78 DILTHEY, Wilhelm (18331911)

78 HORKHEIMER, Max (1895 – 1973

79 SCHELLING, Friedrich… [1775-1854]

80 KANT, Immanuel (17241804)

82 FREYER, Hans (1887 - 1969)

82 HAMANN, Richard Henry (1879–1961)

82 BERGSON, Henri-Louis (Paris, 18591941

83 FREUD, SIGMUND (18561939)

84 PIAGET, Jean. (1896  -1980)

84 SWEDENBORG, Emanuel  (1688 – 1772)

85 SCHOLEM, Gerschom: (1897 – 1982)

86 DAVIDSON, Donald Herbert (1917 – 2003)

86 JASPERS, Karl Theodor: (1883 - 1969)

87 HEIDEGGER, Martin [1889 – 1976]

88 DUMÉZIL, GEORGES (18981986)

89 LÉVINAS, Emmanuel: (19061995)

90 HELLER, Agnes (1929-2019)

91 HOBES, Thomas (1588 – 1679)

92 POPPER, Karl R. (19021994)

96 BLANCHOT, MAURICE (1907 -- 2003)

97 SCHMITT, Carl - (18881985)

100 LÉVI-STRAUSS, Claude (1908-2009)

102 GADAMER, Hans Georg. [1900 – 2002]

 

A tabela ainda está sendo testada. Já passamos da fase de laboratório, com ratos e homens (Of mice and men).  Aos poucos, alguns escritores serão substituídos por filósofos com pedigree, antes que alguém entre com recurso. Por razões estéticas, seria bom dispormos de uma tabela que exibisse pelo menos um filósofo para cada idade. E quem souber de um pensador, tipo James Dean, que tenha vivido rápido e morrido cedo, favor enviar comentário. Hasta la vista, porquinho Babe.

 

LIVROS QUE ANDEI LENDO EM 2024:

 

A estrada (Cormac), segunda leitura para estudo de estilo de redação

Cicero, sobre Amizade e Envelhecer (e, claro, velhos amigos, indo)

Interiores (Maíra Selva) fui ao lançamento, maio, Sampa

Uma palestra é uma missão (Edilson Lopes) treinamento

Latim em pó, (Caetano Galindo but...not quite - me neither)

Contos (meio relendo, coletânea replay), José J. Veiga

O arquiteto e o imperador da Assíria (muito trash, nojento, não passei pro filho herdeiro e arquiteto Itamar)

Fronteira (Cornélio Penna, releitura e estudo – admiro mais agora, ao ler com tempo)

Vozes da Cidade: rádio... em Udi (Newton Dângelo)

O fio da memória de um fio dos padre (JTS)

Histórias que não aguento mais contar (JTS)]

 

RANGO E BIRITAS

 

O reino dos céus não é comida nem bebida”, mas... até lá, nada de passar fome ou sede neste mundo destroçado.

 

A dieta de manutenção tem tido menos cerveja e mais vinho, desses chilenos, argentinos e gaúchos por volta de 6 dólares, tintos demi sec, meistens. Uísque é aquela dose regulamentar vespertina que me faz lembrar do dândi ministro banqueiro
Simmonsen: uma dose on the rocks e um puxa-saco por perto. A novidade é, tem sido, a exclusão das carnes: a patroa e eu paramos de comer carne há exatos 373 dias. E estamos bem.  
E sem entrar em grupos ou fazer campanhas contra o bife ao lado da gondola de frios. Nada. É só deixar de.

 No mais, como diz o xiru missionero: peleando no más!



 

 



[1] Acrescento aqui em 2018 o Whorf, seguidor de Sapir, que não é bem um filósofo. Mas quem o é? Esse era um engenheiro de segurança que visitava indígenas, que falavam outra língua e...viviam em outro mundo, etc. Ora, isso interessa à filosofia. E Wittgenstein também era engenheiro...

[2] Sempre me lembro aqui do Bode Orellana, criado por Henfil. O desenhista viveu só 44 anos, mas o personagem das tiras, que comia livros, sobreviveu ao animal de estimação, falecido na casa do cantor Elomar em 1976. Decerto comeu umas páginas de Sidney Sheldon.