domingo, 25 de junho de 2023

"NÃO MACHUQUEM AS MULHERES, OH SENHORES!"

 

Sete poemas de Nazim Hikmet

 


Fonte: Yeni Siirler / Novos poemas (1951-1959), volume 6. Istambul, Editora Adam Yayinlari, 1987, 184 páginas.

 

Nazim Hikmet (1901-1963): poeta turco, que pertenceu ao Partido Comunista da Turquia, viveu alguns anos na Rússia e passou por outros países da URSS – foi membro importante da vanguarda europeia, contracenando com Maiakóvski e outros poetas militantes.

 

Livro de sebo. Estes poemas foram traduzidos por mero deleite com mel de tâmaras e ainda no entusiasmo das descobertas, faz algum tempo. Contei com a colaboração do compadre Google Tradutor, mas tive uma tarefa considerável para compreender os poemas – ou torná-los legíveis em português – bem como manter a métrica e as rimas, quando era o caso. Nem todas as referências de nomes e lugares foram recuperadas, também devido às diferentes transcrições de chinês para o turco e, daí, para nossa língua portuguesa do Brasil. É um esforço inicial de tradução; não um estudo e nem uma tese sobre teoria da tradução. Eu já havia vencido a resistência quanto ao uso de máquina, após traduzir com sucesso Hobbes desde o latim, para cotejar com inglês.

 



1 – Zhichun Ting

 [Çi-Çun-Tin, página 15]

 

 

Zhichun Ting, a mansão paradisíaca no lago Kunming.

A cruel Cixi vem pálida olhar daqui a primavera.

Eu também olhei. Sandálias passavam entre lírios:

E cantavam “Amanhecer no Leste”.

 

Navio de Pedra

Há um navio em Kunming, casco feito de pedra,

Velas cheias de vento da China

Uma que não se move

Uma que cai na tristeza.

 

Sobre a escultura

Em Wan Shenzen, mármore, olmo e marfim

Nas mãos heroicas de mestres da seda

Eu vi: esse texto é a síntese da delicadeza

Beldades de Pequim em roupas azuis de trabalho.

 

1.10.52 e o bolchevique Ivan

Pessoas brilhantes fluíam da Praça Tiananmen.

As mais áridas terras são fertilizadas por esse rio.

Assisti as festividades ao lado do Sun Yat-Sem.

Primeiro mártir do Palácio de Inverno bolchevique Ivan.

 

(Pequim, 1952)

[NT: Zhichun Ting ou Pavilhão Zhichun é uma edificação na margem oriental do lago Kunming, dentro do complexo Palácio de Verão. Cixi ou Si-Si foi a imperatriz que em 1888 desviou dinheiro para construir obras suntuosas como o Barco de Pedra – Shifang – de 36 metros, em mármore, para repor um barco de madeira queimado 28 anos antes.]

 

 

2 - Noite

[Aksam, página 35]

 

Assim como nas planícies da Anatólia,

O ar é azul

Poeira rosa

Luz roxa,

É noite na planície húngara.

As árvores são familiares como as árvores de nossa planície,

Ao pé das árvores no frescor do entardecer suado, quente

O solo parece um capuz de soldado.

O solo parece um capuz de soldado, dessa cor,

Tão infinito, vasto

Assim como nas planícies da Anatólia

É noite na planície húngara.

As estrelas estão pousando nos galhos

Entre folhas

Junto com os pássaros,

As árvores são familiares àquelas de nossa planície.

As semelhanças param aqui.

É noite, é terra, é uma árvore.

Em nossa planícies as crianças estão famintas

Noivas de vinte anos de idade.

Em nossas planícies, os bois têm um palmo de comprimento.

Nossas planícies não planícies húngaras.

 

(30 de março 1954)

[NT: Aksam, título original, tem uma cedilha no “S” e soa como “aksham”.]

 

 

3 - Mensagem

[Mesaj, páginas 44-45]

 

Pacientes,

Meus irmãos, vocês vão melhorar.

 

Dores e males diminuirão.

Conforto, aquecer

entre galhos pesados e verdes

como noite suave de verão.

 

Pacientes, meus irmãos,

Um pouco mais de calma, de teimosia.

É a vida esperando

Atrás da porta,

E não a morte fria.

O mundo atrás da porta,

O mundo está lá cantando.

Você se levantará de sua cama,

Irá embora.

Você descobrirá de novo o sabor

Do sal, do pão, do sol lá fora.

Amarelar como um limão, derreter, igual cera

Cair de repente feito um plátano oco.

Meus irmãos, pacientes,  

Não somos limões, nem velas, nem plátanos.

Somos humanos, graças a Deus,

Graças a Deus, sabemos juntar esperança

A nossos remédios.

“Preciso viver!”

Diga

De pé insista

Pacientes,

Meus irmãos,

Vamos ficar bem.

Dores e males, diminuirão,

Conforto, aquecer

Entre galhos pesados e verdes

Como noite suave de verão.

 

(Frantisko, Lanzi – 30.6.1954)

[NT: Frantiskov Lazne, República Tcheca, na região dos balneários Karlovy Vary, mas as datas em fontes biográficas dão o ano 1958, quando o poeta Hikmet teria passado por aquelas águas medicinais. Por exemplo, em <karlovarsky denik.cz>]

 

4- Não deixem que nuvens matem gente

[Bulutlar adam öldürmesin, página 54]

 

De homens fazem elas os humanos que são.

Uma delas não te pariu entre dores?

Mães são uma luz adiante na escuridão.

Não machuquem as mulheres, oh senhores!

-Não deixem que nuvens matem gente.

 

Um menino de seis anos corre bem cedo,

Sua pipa está voando sobre o arvoredo.

Você já brincou assim livre sem medo.

Não maltratem as crianças, senhores!

-Não deixem que nuvens matem gente.

 

As noivas que penteiam seus cabelos

Procuram alguém no fundo do espelho.

Claro, muitas noivaram com esses velhos.

Não ofendam as moças, meus senhores!

-Não deixem que nuvens matem gente.

 

Na velhice, só as boas recordações

Devem nos fazer suspirar saudosos.

Que vergonha: não magoar os anciões.

Senhores, vocês também são idosos!

-Não deixem que nuvens matem gente.

 

(Fevereiro – 1955)

[NT: Duas bombas de extermínio foram lançadas pelos norte-americanos sobre o Japão em agosto de 1945; os russos fizeram testes em 1949 e 1955...]

 

5 - Independência

(Istiklal, páginas 85-86)

 

Eu conheço esses navios de guerra, exércitos

Eles também desembarcaram soldados

Em minha terra à noite.

Eles tinham sede do meu sangue.

Queriam roubar a luz dos meus olhos,

A habilidade de minhas mãos.

Nós derrubamos eles no mar.

Foi no não de 1922...

Meu irmão egípcio:

Nossas canções são irmãs,

Nossos nomes são irmãos,

Também se irmanam nossos cansaços.

O que há de belo, grandioso, vivo

Em minha cidade: pessoas, ruas, plátanos

Eles estão com você em sua guerra.

Em minhas aldeias, a “Palavra Antiga”*

É lida no idioma local, para Sua vitória.

Meu irmão egípcio, eu sei, eu sei,

Independência não é um ônibus;

Você perdeu um, precisa pegar outro.

A independência é como nossa amante:

Você traiu uma vez,

Vai ser difícil voltar de novo.

Meu irmão egípcio,

Seu sangue misturado

com as águas do canal.

A terra natal de uma pessoa

Torna-se a sua casa mais uma vez

À medida que seu sangue se mistura com seu sangue

Se mistura com seu solo e

Sua água.

Aquele que não sabe

Morrer pela pátria

Nem sequer está vivo.

 

1956, Kasim

[NT: Novembro 1956 – a crise do Canal de Suez começara em 29 de outubro, quando Israel, apoiado por França e Reino Unido, declarou guerra ao Egito. Nasser, que havia nacionalizado o canal, saiu vitorioso, uma semana depois. / *outro nome para o Alcorão.]

 

 

6 - “Sofra”

(Sofra, página 113)

 

Fiquei louco naquela cidade,

Varna me jogou no divã, verdade.

Na mesa tomate, pimenta,

Linguado frito.

“Ó criados!” diz o rádio. Brisa do mar negro, bonito.

Leite de leoa no copo de raki:

Acorde, anis!

Minha língua falada fraterna e feliz...

Um bem, melhor, bem feito...

Essa Varna me enlouqueceu

Louco de divã, eu...

 

(6 de junho 1957, Varna)

 

[* “Sofra”, em turco é “mesa”, mas preferimos deixar o título no original, pela coincidência com tema clássico da poesia – sofrer, nem que seja depois, saudades. Varna é cidade da Bulgária, banhada pelo Mar Negro, “Karadeniz”.]

 

7 - Homem otimista

(iyimser adam, página 178)

 

Quando criança não cortava as asas das moscas

Não amarrou no rabo dos gatos latinhas

Não prendeu baratas em caixas de fósforo

Não perturbou pobres formiguinhas

Ele cresceu

E fizeram tudo isso com ele

Eu estou a seu lado quando você morre

Um poema leia, disse

No sol no mar

Com caldeiras atômicas nas luas

Para a glória da humanidade

 

(Baku, 6 de abril, 1958)

 

 

 

 

 

terça-feira, 6 de junho de 2023

GREGAS E BIZANTINAS - episódio 1

 Uma solução, tipo "arte matérica". Quando o viajante metido a culto vai à velha Grécia, talvez se prepare com estudos sobre os estilos de colunas. Mas, com certeza é o material - mármore - e o volume dos blocos que vai impressioná-lo. E eis que a quantidade de colunas quebradas, caídas e espalhadas vai deixá-lo zonzo, prestes a um estado de aporia ou adoxia, se é que isso exista.  


Os pedaços de pedras talhadas são tantos... e a multidão de turistas também estressa. Mas, o que se impõe e ainda encanta, seja no Louvre ou no alto do morro da Acrópole, pode ser uma escultura quebrada ou inacabada, como a estonteante Vitória de Samotrácia ou o conjunto incompleto das belas Cariátides.




Por outro lado - o lado dos comerciantes, no centro de Atenas - algumas disputas acadêmicas seculares e concernentes à vaidade podem resolvidas com uma frase curta, em inglês com sotaque de Papadopoulos:

- Nem um nem outro faz mais sucesso. Vende igual aqui... 

"E temos o Sokrates. Se comprar meia dúzia, ganha uma sukita..."


(Depois conto um pouco sobre cenas engraçadas, com termos da língua grega que nem sempre apontam para as estrelas...)




segunda-feira, 17 de abril de 2023

Filósofo na casa dos 60

 Longe do meu computer, experimento pela primeira vez postar algo desde a telinha do celular, com algumas limitações.

Costumo comemorar meu aniversário com minha posição naquele ranking. Estou sempre superando filósofos mais famosos no que mais interessa, a longevidade.

Nos últimos dois anos, "bati a meta" dos seguintes ban ban bans: Bataille, Barthes, Saint Simon e Kojeve...

Também gosto de listar os livros que li nos últimos meses. Sem a memória do PC, só me lembro do impressionante Judas, de Amos Oz... E a fantasia do Italo Calvino: O barão nas árvores. Em breve posso completar está lista.

De volta ao título: este filósofo aposentado está faz tempo na casa dos 60 e ...já vai puxando uma longa varanda para os outros sete anos que se vem somar as dezenas.

Não sei como inserir imagem via celphone, portanto vai ficar assim, às secas.

domingo, 12 de março de 2023

FEIO E GROTESCO: TESE CITA MEU ARTIGO TOP TREND

 

 

Vejam que bela coincidência, em meio a muita feiúra e sujeira...

Eu, que não pago para ver quantos e quienes me citam em teses, passo de vez em quando pelo google e digito meu nome completo entre aspas. Uma sapeada básica. Ver como anda a repercussão.

RICARDO  ZOLLINGER ZANIN

O GROTESCO NAS HISTÓRIAS DE QUADRINHOS DE MARCATTI

UEL - LONDRINA - 2016

Acabo de ver, talvez com atraso, que um estudioso da comunicação utilizou um texto meu para analisar a obra em quadrinhos de um desenhista de gibi, nascido em 1962: Marcatti.



E creio também que o autor da dissertação, a partir da leitura de meu ensaio, ampliou suas fontes de consulta, pelo menos Kayser e Muniz Sodré, já que Bakhtin e Rabelais são mais lidos por outros motivos, na academia. Figurinhas carimbadas. 


O texto sobre o “Grotesco” foi solicitado por um grupo de psi-cólogos / quiatras / analistas da UFRGS, que eu frequentava em 2001. Altos papos, no pós-doc andarilho, sobretudo com Caon e Nikos. O texto também foi apresentado em evento de estética, organizado na Federal de Santa Maria. Márcia Tiburi, também na contra-mão do belo e do sublime, falou sobre o feio.

Esse texto no site da UFRGS ficou aluns meses ou anos nas cabeças, top trends. E até minha imagem passou a ilustrar o tema...pois a Leca Cangussu me chamava com vírgula: "Bento, o Grotesco..." De boa. Tenho um lado aí meio Crumb.

O texto foi publicado também com gasto de papel e tinta pela excelente revista Veritas, da PUCRS, em Porto Alegre, volume 50, número 2, 2004. E pode ser lido lá online também:

O (mau) gosto e o grotesco

Autores

·         Bento Itamar BorgesUniversidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, MG,

DOI: 

https://doi.org/10.15448/1984-6746.2004.2.34562

Palavras-chave: 

Grotesco. Teoria crítica. Estética.

 

Podem ler, que não vai doer nada...

[40 downloads teve esse texto no ano passado. Desde 2004, não faço idéia... Já o ousado ensaio em que aproximei Hegel e Goethe... teve 120 downloads em 2022... ]


Well, eu disse que essa é uma bela coincidência, pois estou ajuntando meus desenhos (tiras, charges) publicados em jornais, entre 1980 e 90... O colega Chico é o cuidadoso editor de uma coletânea em andamento. 






Chico já organizou duas mostras de cartunistas de Udi



"Feio é bater na mãe por causa de mistura!"






quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

"POIS ENTÃO FAÇA ISSO!"


 




Quando vi o Vicentinho...

Agora, um quarto de século depois do ocorrido na Esplanada dos Ministérios, percebo esse editorial assinado – enquanto procuro reunir para uma coletânea todos os artigos que publiquei. Sucedeu que eu era um dos diretores da Revista Educação e Filosofia e coube a mim a função de apresentar o número 26, referente ao segundo semestre de 1999.

Tenho essa dupla alegria: confirmar que nossa importante revista já chegou ao número 78, sem quebra, e que o referido sindicalista pegou seu diploma de Advogado, fez pós-graduação e... tornou-se professor também.

Ora, acho oportuno revelar quem era ele e acrescentar que, de fato, quando ele desceu do caminhão de som e passou perto eu o puxei pelo braço e disse algo como “pois então faça um curso superior, companheiro!”

Segundo uma reportagem disponível nas redes, Vicentinho – que nasceu oito dias antes de mim – teria recebido seu “canudo” aos 48 anos, ou seja, em 2004. Os advogados formam, quase sempre, a categoria “acadêmica” mais comum na carreira política, parlamentar. E Dr. Vicente Paulo da Silva tem atuado desde 2003 como Deputado Federal pelo estado de São Paulo, onde trabalhou antes em fábricas e militou em sindicatos e numa importante central.

O evento em Brasília, em 1998, referido no editorial acima, foi, certamente, uma manifestação de nossa categoria de professores universitários – ao lado de outros servidores públicos federais – no difícil período de arrocho e privatizações de FHC.

 

 


 

VICENTINHO

BIOGRAFIA

·         Nome Civil: VICENTE PAULO DA SILVA

·         Nascimento: 08/04/1956

·         Naturalidade: Santa Cruz, RN

·         Profissões: Advogado; Metalúrgico

·         Filiação: Francisco Germano da Silva e Maria Jeronimo da Silva

·         Escolaridade: Pós-Graduação

 


quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

BUCHADA DE BODE - ANEDOTAS NORDESTINAS

 



"You may land, but se der bode, 
I take my body out!"

<ANEDOTA COM APERITIVO: Cícero e eu tivemos um encontro inesperado e surpreendente em Fortaleza, no que vai também um pouco de nosso envolvimento com uma coisa e outra: a 57ª Reunião anual da SBPC aconteceu entre 17 e 22 de julho de 2005, semana em que também se reuniam professores universitários em um evento sindical do ANDES-SN, o 50º CONAD, de 15 a 17 do mesmo mês e ano. Segundo meu CSI do gasto, este mineiro se encontrou com o prezado potiguar confluente dia 17. Reparem. Nós, do ANDES, faríamos lá uma intervenção em defesa da Universidade Pública Gratuita e de Qualidade, ao passo que o Prof. Dr. Cícero exibia com orgulho seu recente título de Dr., ao apresentar lá no Ceará o tema de sua tese: O Processo de Ruptura do Voto-de-Cabresto do Coronelismo: Seridó Potiguar (1950).

Ora, cada um de nós ia para um lado, de olho no relógio, seguidos de suas pequenas comitivas, de docentes-sindicalistas e de alunos-expositores... Esta anedota ainda não provocou o riso, mas está aqui para isso.  Já me afastando do colega Cícero, pedi a opinião dele sobre meus planos gastronômicos para mais tarde, depois dos compromissos institucionais: eu queria comer, finalmente, uma buchada de bode! Ele não se deu por convidado e ainda me assustou por muito tempo. “Não faça isso!” Disse ele e repetiu, alertando rapidamente quanto aos perigos para minha saúde. Falei com a pessoa errada, pois ele tornara-se um natureba rigoroso, tipo vegetariano, fazia yoga e bebia um tipo de água desmagnetizada. E sei que ele ainda se cuida com esse estilo de vida. >

Para quem gosta, olha o recorte do Lattes aí, pra evitar hipóteses sobre o Ozaime beirando o cerrado aqui: SOARES NETO. O Processo de Ruptura do Voto-de-Cabresto do Coronelismo: Seridó Potiguar (1950). In: 57 Reunião Anual da SBPC, 2005, Fortaleza- Ceará. 57ª Reunião Anual SBPC. Fortaleza- Ceará, 2005.

 



E a buchada? Comi ou não não comi? 

Sim, comi e... tô aí vivo e gordo. Mas isso veio a acontecer três anos depois, em Pernambuco, durante evento de um grupo que estuda Hegel, inclusive o conhecido Prof. Menezes. Mas isso será outra história. 



Na verdade, o banquete foi em Caruaru, onde também visitamos
o Museu Santuário de Luis Gonzaga e a casa de Mestre Vitalino


Simples: uma cachaça antes e uma coca depois da buchada. E o mineiro não pode fazer careta e "enjeitar" um pitéu desses, vez que em nossa terrinha apreciamos o "bucho cheio" com os miúdos e fissuras (whatever that means) do porquinho cevado. Inclusive, há uns quinze anos, o Flora voltou de uma temporada em Berlim e estava doido de vontade de comer essa fritada na banha... E aí. Ok, é mais outra história, pra outra hora. 




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CORONELISMO E FRAUDE ELEITORAL - segunda resenha de livro do Cícero JAS Neto






SEGUNDA PARTE: O DOUTORDAO 

  

A capa azul, com traços e cortes da típica xilogravura de cordel, não precisa trazer todas as delimitações do título original. Faltou o parâmetro temporal “1950”. Quem é do ramo sabe que uma boa tese diz o máximo sobre o mínimo. Por um lado, o título parece amplo e pretensioso – Coronelismo no Nordeste – ao passo que o subtítulo se refere justamente ao fim do dito coronelismo, em sentido estrito: o processo de ruptura do voto de cabresto no curral eleitoral. 

O que faltou na bem bolada arte da capa? Apenas a data, o ano 1950, ao lado do endereço “Seridó Potiguar”. Ano importantíssimo para as reformas na legislação para o sistema eleitoral.

Ora, o valor da tese de doutorado do Prof. Dr. Cícero JAS Neto – e, de certa forma, também a demora em publicá-la – decorre também de uma dupla ruptura, sendo uma relatada e justificada pelos dados históricos e a outra, praticada e sustentada pelo próprio colega pesquisador. Ou seja, antecipando um palpite: Cícero mostra como e quando acabou a mamata do coronel manipulador de votos em seu curral eleitoral e, com isso, ao mesmo tempo, desbanca uma teoria equivocada e superada pela disputa de paradigmas na sociologia eleitoral, conforme improvisei em minhas anotações no papel do livro: o fator Q.

Trata-se mais de intensidade e enfoque que de extensão do texto. Entre a dissertação de mestrado, defendida em 1984, e esta tese de doutorado, com banca em 2003, não se nota um aumento de páginas impressas, pois são duas centenas em cada obra, e nem cresceu a proporção reservada para listar as referências bibliográficas, em torno de vinte páginas, para cada qual. Mas, é claro que os livros são outros, com poucas repetições. 

Para deixar mais claro: só um quarto das duzentas fontes bibliográficas se manteve do mestrado para o doutorado, ou seja, houve uma significativa ampliação, com inovação. E isso é mais relevante, quando notamos que há no livro anterior cinquenta artigos de jornal de um mesmo J. L. Faria, que publicou entre 1903 e 1955, ou seja, o elenco de autores citados cresceu exponencialmente de um degrau a outro, no regime da pós-graduação de Cícero.  

Estas são velhas curiosidades de quem tinha lá suas manias e estratégias ao ler artigos e TCCs. A tese mantém apenas um dos dois livros de Marx da primeira lista; aparecem agora Mauss e Max Weber – “ensaio sobre a dádiva” e “los tipos de dominación”, respectivamente. 

A tese de Cícero cita seu próprio mestrado e um artigo de seu orientador Saes. Todavia, um pouco fora do ritual, não cita nenhum escrito de seu orientador na UnB, Elimar P. do Nascimento, o qual, aliás, só empregou mais uma vez o termo “coronelismo” em sua extensa seção de orientandos, no Lattes, bem como em inúmeras publicações.

Na resenha que acabo de publicar neste blog, post anterior, me lembrei do romance de Mário Palmério, que não aparece lá. Mas, comemoro aqui a referência a Vila dos Confins – que aprecio e avalio a meu modo – bem como a presença de O tronco, de Bernardo Elis, O coronel e o lobisomen, de José C. de Carvalho e... alguns conhecidos romances de Jorge Amado. 

Essas obras estão em lista à parte, ao final, junto de outros “quadros” que agrupam as obras utilizadas por gênero. E isso é muito oportuno e útil para ler o texto e para quem quiser utilizá-lo para consulta e pesquisa. Mário Palmério lançou aquele romance no ano da graça de 1956, quando as musas caboclas nos deram também o GSV, de João Rosa. O pecuarista de Uberaba havia acumulado experiência como político e ouvia causos de nosso sertão mineiro.

 

"ESTEJA ESTREBUCHANDO!" Antes de prosseguir, uma ressalva, para atualizar a informação. Voltemos à outra resenha, publicada no post anterior, e mais exatamente a sua última página. Ali eu havia cobrado de Cícero, no âmbito de sua dissertação de mestrado, a interessante e inesquecível caderneta, uma peça lamentavelmente verdadeira da história geral do mandonismo: um desfile de regras absurdas e ameaças autoritárias. E agora descubro que o tal documento foi reproduzido na tese aqui exposta. Confiram na página 115: Fazenda Irapuru – Caderneta de Morador.

 

Essa bibliografia mais rica e mais atualizada arremata e combina bem com o plano da obra, que já se nota mais complexa que a dissertação de mestrado, desde a simples leitura do sumário. Ora, nosso colega, naqueles vinte anos que transcorreram entre as duas bancas, deixou o modelinho clássico da tríade métodos/material/discussão, pois não só escreveu quatro capítulos, como diluiu acertadamente as decisões e justificativas metodológicas ao longo das seções. Em duas décadas, o cabra que pesquisa vai se acostumando com o ambiente acadêmico e tende a buscar uma exposição mais “substancial” e firme, quase performática – pois as credenciais foram vencidas no projeto e não apetecem tanto ao leitor, fora da banca.

O amadurecimento do pesquisador SOARES NETO se mostrou já no capítulo primeiro, ao enfrentar o pesado campo da teoria clientelista e de suas variantes diante de visões conflitantes, oponentes. São paradigmas em disputa no ambiente acadêmico brasileiro, seguindo também – nem sempre com postura seletiva – certas influências internacionais.   A tese analisa a produção historiográfica sobre o coronelismo – no que amplia o tema anterior mais adscrito ao mecanismo do voto – e já demarca duas fases. Na fase clássica estão Leal, Faoro e... Isaura Queiroz. 

E, na seguinte, a da “contestação”, Cícero se inscreve ao lado de Blondel, Pang, bem como seu professor anterior, Saes. Há um ótimo quadro para entender essa dinâmica, na página 35. Ali fica claro também que a terceira fase, a da “reinterpretação”, acolhe autores que haviam publicado depois de 1984, como Andrade, Dantas e Barreira. Ou seja, a continuidade da pesquisa passou por uma atualização do state of the art, mas é certamente bem mais que isso.

O segundo capítulo retoma a análise sociológica da participação política – não só na perspectiva reducionista e unilateral da “dominação” pela falta de terra – e avança na demarcação histórica, de modo que a cronologia se estenda além do período da República Velha. E as “contribuições” da tese já se apresentam bem cedo, a partir da distinção entre as categorias de morador e sitiante e as correspondentes formas “voto de cabresto” / “voto de clientela”.

 

Convém-nos aqui um elogio ao método, com a deixa da entrada em cena desse novo ator: o sitiante. As pesquisas qualitativas e/ou participantes precisam ser valorizadas e difundidas na academia, que tende a privilegiar abordagens quantitativas e (aparentemente) neutras. Um exemplo de pesquisador que se tornou burocrata e avesso ao gênero, que depreciou maldosamente como “pesquisação” é ou foi Cláudio Moura Castro. Do outro lado, exemplos que levaram a sério a “pesquisa-ação” somos nós três e mais uma turma:  Carlos R. Brandão, este humilde resenhador do cerrado e, é claro, nosso autor Cícero José.

Muito atento a suas tabelas – que não pensam por si mesmas – o colega potiguar levou a sério justamente as cifras “restantes”, no pé das fichas com resultados da coleta de dados. Se em uma propriedade rural moravam duas pessoas e ambas deram seus votos em um certo pleito, não poderiam ser consideradas na coluna de “moradores” e, portanto, não estariam submetidas à chantagem sistemática do latifundiário. Esses “poucos” sitiantes significam, portanto, muito para a campanha de derrubar a “tese Q”, reducionista e historiograficamente mal informada.  Confiram essa demonstração de inteligência ciceriana na seção 2.3, como “terceira proposição analítica”.

Para entender como e quando o coronel perdeu seu trunfo e seu plantel de eleitores “cativos”, o leitor precisa ler com muita atenção a tese por extenso. Mas, logo perceberá que adota-se ali, de forma não revelada, a boa e velha abordagem materialista, no sentido básico da análise do modo de produção, através do desenvolvimento técnico. 

Só para assanhar o leitor, podemos adiantar que na década de 1950 as usinas de beneficiamento de algodão na região do Seridó  vão mudar a relação de poder e de barganha, ao retirar o protagonismo do tradicional e atrasado dono da terra. Cícero desce ao nível molecular para criar uma tipologia das usinas, mais ou menos complexas, para escalonar os processos de “valorização do voto”, sob a influência de novos agentes sociais. Dentre as usinas, que se valiam de corretores, destacam-se como mais determinantes da ruptura aquelas multinacionais, como foi o caso da conhecida SANBRA – sim, multinacional esperta inclui Brasil na sigla.

Cícero analisa de maneira magistral – na verdade, “doctoral”—a evolução da produção e da comercialização do algodão, inclusive pelo melhor aproveitamento do caroço, para óleo e resíduos. As usinas pequenas cederam lugar para as médias e grandes, migrando da zona rural para as cidades. A concentração delas e as novas modalidades de financiamento da produção ajudam a explicar a perda de poder do coronel no “mercado de votos”, inclusive pelo crescente êxodo rural.

Digo ajudam porque a tese de Cícero apresenta aos poucos, passo a passo, os argumentos que derrubam a tese dominante de Isaura Queiroz, para mostrar como e quando se deu tal ruptura: do coronel ao cabo eleitoral, que era, aliás, um tipo de corretor ou “cambista” ( termo que insiro aqui, por minha conta, pensando na portaria do estádio de futebol).

O quarto capítulo é constituído, então, pelas peças argumentativas oriundas da interpretação que conduzem ao enunciado geral sobre a ruptura. Essa seção é quase uma versão estendida da “Conclusão”, mas o capítulo final se justifica por montar uma bem orquestrada exposição em formato de fluxograma e em um nível mais “formal”, conforme anuncia e desenha o autor.  

Outro valor da pesquisa qualitativa, que se mantém vivo no “relatório final” constata-se na transcrição literal de depoimentos dos entrevistados: o homem comum lá na roça, parafraseando os analíticos ingleses era explorado pelo proprietário e, eventualmente, se sentia à vontade para explicar que sabia disso e como isso funcionava. 

A boa pesquisa de campo, que herdou algo de bom e útil das abordagens antropológicas e etnográficas, reconhece não só as categorias da visão de mundo dos ditos informantes, como pode aproveitar a terminologia mesma em que se expressam: “todo morador só votava com ele”(o coronel fulano); e, depois outro disse “tem a usina de algodão, eu faço negócio com ele...de algodão, ele é muito bom para mim, eu voto com ele, na oposição” (pag. 77 e 81)

Enfim, saiba o futuro leitor da tese de Cícero que ele prestigia sua primeira graduação: direito. Não se contenta em demonstrar os fatores demográficos e econômicos que alteraram a manipulação do eleitor – o que não seria pouco –  pois o poder dos landowners adaptou-se desde a época colonial até o fim da república velha, passando pelo império e coisa e tal. Mas, é claro que a legislação eleitoral também esperneou para costurar uma rede de proteção para o processo eleitoral, sem obrigatoriamente garantir o direito do eleitor, que vai além de votar.

 

Se uma resenha deve ser equivalente a um trailer de filme, então vou encerrar, pois chega de spoilers! Quem precisar e quiser que leia os livros do colega Cícero. Não vou dizer que os tais volumes “não podem faltar nas boas estantes”,  pois muitos jornalistas crus, políticos malandros e eleitores equivocados vão continuar a usar inadequadamente os seus títulos e as noções confusas. Em outros tempos, era perigoso confundir coronel com cabo eleitoral. E há outros perigos, para os quais a produção acadêmica não tem tanta força assim, nem efeito. Aqui, por exemplo, estamos desarmados, na onda do esclarecimento e do convencimento. Compadre Cícero e eu.