segunda-feira, 17 de julho de 2023
Voto de cabresto e entreveros acadêmicos
domingo, 25 de junho de 2023
"NÃO MACHUQUEM AS MULHERES, OH SENHORES!"
Sete poemas de Nazim Hikmet
Fonte:
Yeni Siirler / Novos poemas (1951-1959),
volume 6. Istambul, Editora Adam Yayinlari, 1987, 184 páginas.
Nazim
Hikmet (1901-1963): poeta turco, que pertenceu ao Partido Comunista da Turquia,
viveu alguns anos na Rússia e passou por outros países da URSS – foi membro
importante da vanguarda europeia, contracenando com Maiakóvski e outros poetas
militantes.
Livro
de sebo. Estes poemas foram traduzidos por mero deleite com mel de tâmaras e
ainda no entusiasmo das descobertas, faz algum tempo. Contei com a colaboração
do compadre Google Tradutor, mas tive uma tarefa considerável para compreender
os poemas – ou torná-los legíveis em português – bem como manter a métrica e as
rimas, quando era o caso. Nem todas as referências de nomes e lugares foram
recuperadas, também devido às diferentes transcrições de chinês para o turco e,
daí, para nossa língua portuguesa do Brasil. É um esforço inicial de tradução;
não um estudo e nem uma tese sobre teoria da tradução. Eu já havia vencido a
resistência quanto ao uso de máquina, após traduzir com sucesso Hobbes desde o
latim, para cotejar com inglês.
1 –
Zhichun Ting
[Çi-Çun-Tin, página 15]
Zhichun
Ting, a mansão paradisíaca no lago Kunming.
A
cruel Cixi vem pálida olhar daqui a primavera.
Eu
também olhei. Sandálias passavam entre lírios:
E
cantavam “Amanhecer no Leste”.
Navio de Pedra
Há
um navio em Kunming, casco feito de pedra,
Velas
cheias de vento da China
Uma
que não se move
Uma
que cai na tristeza.
Sobre a escultura
Em
Wan Shenzen, mármore, olmo e marfim
Nas
mãos heroicas de mestres da seda
Eu
vi: esse texto é a síntese da delicadeza
Beldades
de Pequim em roupas azuis de trabalho.
1.10.52 e o bolchevique Ivan
Pessoas
brilhantes fluíam da Praça Tiananmen.
As
mais áridas terras são fertilizadas por esse rio.
Assisti
as festividades ao lado do Sun Yat-Sem.
Primeiro
mártir do Palácio de Inverno bolchevique Ivan.
(Pequim,
1952)
[NT:
Zhichun
Ting ou Pavilhão Zhichun é uma edificação na margem oriental do lago Kunming,
dentro do complexo Palácio de Verão. Cixi ou Si-Si foi a imperatriz que em 1888
desviou dinheiro para construir obras suntuosas como o Barco de Pedra – Shifang
– de 36 metros, em mármore, para repor um barco de madeira queimado 28 anos
antes.]
2 - Noite
[Aksam,
página 35]
Assim
como nas planícies da Anatólia,
O
ar é azul
Poeira
rosa
Luz
roxa,
É
noite na planície húngara.
As
árvores são familiares como as árvores de nossa planície,
Ao
pé das árvores no frescor do entardecer suado, quente
O
solo parece um capuz de soldado.
O
solo parece um capuz de soldado, dessa cor,
Tão
infinito, vasto
Assim
como nas planícies da Anatólia
É
noite na planície húngara.
As
estrelas estão pousando nos galhos
Entre
folhas
Junto
com os pássaros,
As
árvores são familiares àquelas de nossa planície.
As
semelhanças param aqui.
É
noite, é terra, é uma árvore.
Em
nossa planícies as crianças estão famintas
Noivas
de vinte anos de idade.
Em
nossas planícies, os bois têm um palmo de comprimento.
Nossas
planícies não planícies húngaras.
(30
de março 1954)
[NT: Aksam,
título original, tem uma cedilha no “S” e soa como “aksham”.]
3 - Mensagem
[Mesaj,
páginas 44-45]
Pacientes,
Meus
irmãos, vocês vão melhorar.
Dores
e males diminuirão.
Conforto,
aquecer
entre
galhos pesados e verdes
como
noite suave de verão.
Pacientes,
meus irmãos,
Um
pouco mais de calma, de teimosia.
É
a vida esperando
Atrás
da porta,
E
não a morte fria.
O
mundo atrás da porta,
O
mundo está lá cantando.
Você
se levantará de sua cama,
Irá
embora.
Você
descobrirá de novo o sabor
Do
sal, do pão, do sol lá fora.
Amarelar
como um limão, derreter, igual cera
Cair
de repente feito um plátano oco.
Meus
irmãos, pacientes,
Não
somos limões, nem velas, nem plátanos.
Somos
humanos, graças a Deus,
Graças a Deus, sabemos juntar esperança
A nossos remédios.
“Preciso viver!”
Diga
De pé insista
Pacientes,
Meus irmãos,
Vamos ficar bem.
Dores e males, diminuirão,
Conforto, aquecer
Entre galhos pesados e verdes
Como noite suave de verão.
(Frantisko, Lanzi – 30.6.1954)
[NT: Frantiskov Lazne, República Tcheca, na região
dos balneários Karlovy Vary, mas as datas em fontes biográficas dão o ano 1958,
quando o poeta Hikmet teria passado por aquelas águas medicinais. Por exemplo,
em <karlovarsky denik.cz>]
4- Não
deixem que nuvens matem gente
[Bulutlar adam öldürmesin, página 54]
De homens fazem elas os humanos que são.
Uma delas não te pariu entre dores?
Mães são uma luz adiante na escuridão.
Não machuquem as mulheres, oh senhores!
-Não deixem que nuvens matem gente.
Um menino de seis anos corre bem cedo,
Sua pipa está voando sobre o arvoredo.
Você já brincou assim livre sem medo.
Não maltratem as crianças, senhores!
-Não deixem que nuvens matem gente.
As noivas que penteiam seus cabelos
Procuram alguém no fundo do espelho.
Claro, muitas noivaram com esses velhos.
Não ofendam as moças, meus senhores!
-Não deixem que nuvens matem gente.
Na velhice, só as boas recordações
Devem nos fazer suspirar saudosos.
Que vergonha: não magoar os anciões.
Senhores, vocês também são idosos!
-Não deixem que nuvens matem gente.
(Fevereiro – 1955)
[NT: Duas bombas de extermínio foram lançadas
pelos norte-americanos sobre o Japão em agosto de 1945; os russos fizeram
testes em 1949 e 1955...]
5 - Independência
(Istiklal, páginas 85-86)
Eu conheço esses navios de guerra, exércitos
Eles também desembarcaram soldados
Em minha terra à noite.
Eles tinham sede do meu sangue.
Queriam roubar a luz dos meus olhos,
A habilidade de minhas mãos.
Nós derrubamos eles no mar.
Foi no não de 1922...
Meu irmão egípcio:
Nossas canções são irmãs,
Nossos nomes são irmãos,
Também se irmanam nossos cansaços.
O que há de belo, grandioso, vivo
Em minha cidade: pessoas, ruas, plátanos
Eles estão com você em sua guerra.
Em minhas aldeias, a “Palavra Antiga”*
É lida no idioma local, para Sua vitória.
Meu irmão egípcio, eu sei, eu sei,
Independência não é um ônibus;
Você perdeu um, precisa pegar outro.
A independência é como nossa amante:
Você traiu uma vez,
Vai ser difícil voltar de novo.
Meu irmão egípcio,
Seu sangue misturado
com as águas do canal.
A terra natal de uma pessoa
Torna-se a sua casa mais uma vez
À medida que seu sangue se mistura com seu sangue
Se mistura com seu solo e
Sua água.
Aquele que não sabe
Morrer pela pátria
Nem sequer está vivo.
1956, Kasim
[NT: Novembro
1956 – a crise do Canal de Suez começara em 29 de outubro, quando Israel, apoiado
por França e Reino Unido, declarou guerra ao Egito. Nasser, que havia
nacionalizado o canal, saiu vitorioso, uma semana depois. / *outro nome para o
Alcorão.]
6 - “Sofra”
(Sofra, página 113)
Fiquei louco naquela cidade,
Varna me jogou no divã, verdade.
Na mesa tomate, pimenta,
Linguado frito.
“Ó criados!” diz o rádio. Brisa do mar negro,
bonito.
Leite de leoa no copo de raki:
Acorde, anis!
Minha língua falada fraterna e feliz...
Um bem, melhor, bem feito...
Essa Varna me enlouqueceu
Louco de divã, eu...
(6 de junho 1957, Varna)
[* “Sofra”, em turco é “mesa”, mas preferimos
deixar o título no original, pela coincidência com tema clássico da poesia –
sofrer, nem que seja depois, saudades. Varna é cidade da Bulgária, banhada pelo
Mar Negro, “Karadeniz”.]
7 - Homem
otimista
(iyimser adam, página 178)
Quando criança não cortava as asas das moscas
Não amarrou no rabo dos gatos latinhas
Não prendeu baratas em caixas de fósforo
Não perturbou pobres formiguinhas
Ele cresceu
E fizeram tudo isso com ele
Eu estou a seu lado quando você morre
Um poema leia, disse
No sol no mar
Com caldeiras atômicas nas luas
Para a glória da humanidade
(Baku, 6 de abril, 1958)
terça-feira, 6 de junho de 2023
GREGAS E BIZANTINAS - episódio 1
Uma solução, tipo "arte matérica". Quando o viajante metido a culto vai à velha Grécia, talvez se prepare com estudos sobre os estilos de colunas. Mas, com certeza é o material - mármore - e o volume dos blocos que vai impressioná-lo. E eis que a quantidade de colunas quebradas, caídas e espalhadas vai deixá-lo zonzo, prestes a um estado de aporia ou adoxia, se é que isso exista.
Os pedaços de pedras talhadas são tantos... e a multidão de turistas também estressa. Mas, o que se impõe e ainda encanta, seja no Louvre ou no alto do morro da Acrópole, pode ser uma escultura quebrada ou inacabada, como a estonteante Vitória de Samotrácia ou o conjunto incompleto das belas Cariátides.
Por outro lado - o lado dos comerciantes, no centro de Atenas - algumas disputas acadêmicas seculares e concernentes à vaidade podem resolvidas com uma frase curta, em inglês com sotaque de Papadopoulos:
- Nem um nem outro faz mais sucesso. Vende igual aqui...
![]() |
| "E temos o Sokrates. Se comprar meia dúzia, ganha uma sukita..." |
(Depois conto um pouco sobre cenas engraçadas, com termos da língua grega que nem sempre apontam para as estrelas...)
segunda-feira, 17 de abril de 2023
Filósofo na casa dos 60
Longe do meu computer, experimento pela primeira vez postar algo desde a telinha do celular, com algumas limitações.
Costumo comemorar meu aniversário com minha posição naquele ranking. Estou sempre superando filósofos mais famosos no que mais interessa, a longevidade.
Nos últimos dois anos, "bati a meta" dos seguintes ban ban bans: Bataille, Barthes, Saint Simon e Kojeve...
Também gosto de listar os livros que li nos últimos meses. Sem a memória do PC, só me lembro do impressionante Judas, de Amos Oz... E a fantasia do Italo Calvino: O barão nas árvores. Em breve posso completar está lista.
De volta ao título: este filósofo aposentado está faz tempo na casa dos 60 e ...já vai puxando uma longa varanda para os outros sete anos que se vem somar as dezenas.
Não sei como inserir imagem via celphone, portanto vai ficar assim, às secas.
domingo, 12 de março de 2023
FEIO E GROTESCO: TESE CITA MEU ARTIGO TOP TREND
Vejam que bela
coincidência, em meio a muita feiúra e sujeira...
Eu, que não pago para
ver quantos e quienes me citam em teses, passo de vez em quando pelo google e
digito meu nome completo entre aspas. Uma sapeada básica. Ver como anda a
repercussão.
RICARDO ZOLLINGER ZANIN
O GROTESCO NAS HISTÓRIAS DE QUADRINHOS DE MARCATTI
UEL - LONDRINA - 2016
Acabo de ver, talvez
com atraso, que um estudioso da comunicação utilizou um texto meu para analisar
a obra em quadrinhos de um desenhista de gibi, nascido em 1962: Marcatti.
E creio também que o autor da dissertação, a partir da leitura de meu ensaio, ampliou suas fontes de consulta, pelo menos Kayser e Muniz Sodré, já que Bakhtin e Rabelais são mais lidos por outros motivos, na academia. Figurinhas carimbadas.
O texto sobre o “Grotesco” foi solicitado por um grupo de psi-cólogos / quiatras / analistas da UFRGS, que eu frequentava em 2001. Altos papos, no pós-doc andarilho, sobretudo com Caon e Nikos. O texto também foi apresentado em evento de estética, organizado na Federal de Santa Maria. Márcia Tiburi, também na contra-mão do belo e do sublime, falou sobre o feio.
Esse texto no site da
UFRGS ficou aluns meses ou anos nas cabeças, top trends. E até minha imagem
passou a ilustrar o tema...pois a Leca Cangussu me chamava com vírgula: "Bento,
o Grotesco..." De boa. Tenho um lado aí meio Crumb.
O texto foi publicado
também com gasto de papel e tinta pela excelente revista Veritas, da PUCRS, em
Porto Alegre, volume 50, número 2, 2004. E pode ser lido lá online também:
O (mau) gosto e o grotesco
Autores
·
Bento Itamar BorgesUniversidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, MG,
DOI:
https://doi.org/10.15448/1984-6746.2004.2.34562
Palavras-chave:
Grotesco. Teoria crítica.
Estética.
Podem ler, que não vai doer nada...
[40 downloads teve
esse texto no ano passado. Desde 2004, não faço idéia... Já o ousado ensaio em que aproximei Hegel e Goethe... teve 120 downloads em 2022... ]
Well, eu disse que essa é uma bela coincidência, pois estou ajuntando meus desenhos (tiras, charges) publicados em jornais, entre 1980 e 90... O colega Chico é o cuidadoso editor de uma coletânea em andamento.
![]() |
| Chico já organizou duas mostras de cartunistas de Udi |
![]() |
"Feio é bater na mãe por causa de mistura!" |
quarta-feira, 25 de janeiro de 2023
"POIS ENTÃO FAÇA ISSO!"
Quando vi o Vicentinho...
Agora, um quarto de século depois do ocorrido na Esplanada
dos Ministérios, percebo esse editorial assinado – enquanto procuro reunir para
uma coletânea todos os artigos que publiquei. Sucedeu que eu era um dos
diretores da Revista Educação e Filosofia e coube a mim a função de apresentar
o número 26, referente ao segundo semestre de 1999.
Tenho essa dupla alegria: confirmar que nossa importante
revista já chegou ao número 78, sem quebra, e que o referido sindicalista pegou
seu diploma de Advogado, fez pós-graduação e... tornou-se professor também.
Ora, acho oportuno revelar quem era ele e acrescentar que,
de fato, quando ele desceu do caminhão de som e passou perto eu o puxei pelo
braço e disse algo como “pois então faça um curso superior, companheiro!”
Segundo uma reportagem disponível nas redes, Vicentinho –
que nasceu oito dias antes de mim – teria recebido seu “canudo” aos 48 anos, ou
seja, em 2004. Os advogados formam, quase sempre, a categoria “acadêmica” mais
comum na carreira política, parlamentar. E Dr. Vicente Paulo da Silva tem
atuado desde 2003 como Deputado Federal pelo estado de São Paulo, onde
trabalhou antes em fábricas e militou em sindicatos e numa importante central.
O evento em Brasília, em 1998, referido no editorial acima, foi,
certamente, uma manifestação de nossa categoria de professores universitários –
ao lado de outros servidores públicos federais – no difícil período de arrocho
e privatizações de FHC.
VICENTINHO
BIOGRAFIA
·
Nome Civil: VICENTE PAULO DA SILVA
·
Nascimento: 08/04/1956
·
Naturalidade: Santa Cruz, RN
·
Profissões: Advogado; Metalúrgico
·
Filiação: Francisco Germano da Silva e
Maria Jeronimo da Silva
·
Escolaridade: Pós-Graduação












