sábado, 24 de março de 2012

MAS QUEM NÃO É CHICO?

Adeus, xará!

As últimas badaladas notúrnicas

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E prometo passar a segunda metade da vida ouvindo de novo e sempre aquela fita cassette, sucesso desde 1979 na república da rua Indianópolis. Com uma boa cachaça na conversa boa, tá sabendo? Ô, Geraldinho, o que é que eu tô fazendo neste post, bicho? E cadê o Grilo, o “seu Mechelô”, Donana e José Bonifácio?
Alguns colegas me chamam de Bento Carneiro: por exemplo o Ed Morte, na Paraíba. Ou o Mateus, aqui da UFU, agora lá no elenco celeste das meias-duplas caipiras, onde já moram dois Trapalhões. Às vezes eu retribuía o cumprimento com um “Olá, Kalunga!”, sem apelar e de boa.
Mas se querem saber, me identificava muito é com o Tavares. Não tanto pelo bom gosto etílico (uísque nas pedras – olha a cascavel!)  e nem pela esperteza de quem não tinha salário de ministro Simonsen pra bancar o vício. E nem nada.

Mas quem não é?
Sucede que o Tavares é, dentre os duzentos personagens de Chico Anisio, o mais interessante para a filosofia. Sua frase “sou... mas quem não é?” deve figurar à altura das confabulações de Heráclito e de Hamlet sobre ser ou não ser. (Uma vez ele exagerou nas doses, me disse o Lilico, o Bé Ribêro, e bolou as trocas: “é... mas quem não sou?”)
Chico deixou de ser, cansou de sofrer em hospitais e andava estressado com a matemática: como dividir 200 tipos com sete viúvas? Mesmo com 6 daria dízima periódica. Espero que o Bento Carneiro não fique com a Zélia. E que o Tavares não sofra de sede, sem seu scotch.

No fim da estrada, uma tropicália psicodélica: é muito justo, justíssimo!
Anísio foi capaz de montar e de manter uma cidade, uma city – universal em sua aparência sertaneja. Sua capacidade musical, ao lado de Arnaud Rodrigues, foi além da paródia. Deixaram belas canções, meio perpendiculares ao tropicalismo. Um cearense tem que ser muito fera pra bancar o baiano – ou imitar a gaúcha Salomé.   
E o cara ainda escreveu? Não teve vergonha de ser tão talentoso? E achou tempo. E mereceu prefácios de gente graúda. Não é mentira, Terta.

Do ponto de vista dos Gigantes Chico e Ziraldo
Por fim, o fim e outra identificação: o contador de causos Pantaleão. Eu queria ser aquele coronel, rodeado de ouvintes atentos – no tempo dos perigos e valentias. Antes da televisão.

-Verdade!

sexta-feira, 16 de março de 2012

MIÚDOS, SEM ÁCIDO ÚRICO

E no seco, seu gualda? Pode?

 Mais um episódio da série “kantianas em fá maior”
Nem todos somos filósofos, mas muitos podem criar frases dilemáticas à moda kantiana, que se encaixem no esquema: “x sem y é vazio e y sem x é cego”. Ele mesmo, Immanuel, preencheu o dito com imaginação e entendimento. Entenderam qual é qual? Agora essa! Uma placa em um parque de Uberlândia. Soa um pouco diferente e nos faz pensar no sentido da proibição, tipo “can” e “may”, como vimos nas aulinhas de inglês. Você não pode nadar depois da tela – o guarda não deixa. E você não poderia nadar antes da tela -  pois... não tem água. Só por causa disso.
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 SEÇÃO AUTO-REFLEXÃO DOIS PONTO ZERO
 filosofando em cima do carro (pra não rodar com a enchente)
Já incorremos nessa análise apressada, mas antes que o sinal fique verde, posso retirar o que disse ou pensava sobre a imitação do design na indústria atual. Se não for seu dia de garagem no rodízio em Sampa, pegue seu carro como exemplo. Certamente há inúmeros carros parecidos com ele, de outras marcas, pois os asiáticos imitam os europeus, que imitaram os norte-americanos. Já viram a imitação chinesa do Mini Cooper? E as variações em torno do mesmo design nas marcas coreanas? Ok. Pode ser, mas não é novidade.

No Museu do Automóvel, em Curitiba, podemos corrigir essa impressão ideologicamente carregada pela desconfiança no capitalismo tardio – ou retardado. Não quero ser um desses. Calhambeques, todos parecidos nos anos vinte. Todos semelhantes ao Ford T e não sabemos mais quem começou a colocar rodas com raios de pau e motorzinho de 15 hp em cristaleiras.

Essa é a origem do design: nas marcenarias, onde fabricavam carruagens, armários de cozinha e mesinhas da perna torta com pata de leão.
E depois, as banheiras que queriam ser aviões. Os logotipos tridimensionais no capô variavam de mulheres aladas e seios bicudos a cães de caça saltando e, claro, aviões. Hound dogs. Carros com rabos de peixe e asinhas em homenagem aos DC10 e aviões de guerra. O design do carro agradecia a vitória na segunda guerra. Sim, ideologia ufanista.

Mas, enquanto isso, lá fora do museu, a vida ferve no parque Barigui. Carros novos e tunados, sonzão ligado, motos gordas e pneuzudas. Moças de shortinho, latinha na mão. E esse ótimo recado meio grosseiro no estepe do jipão. Fazer o quê? É um fora de estrada, mas paga impostos e tem o direito de vir e ir não só no acostamento.
TÁ COM PRESSA?
PASSA POR BAIXO.
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A PINTURA MORREU
(para você, seu míope ingrato!)
No caso das artes, é assim: prepare uma históriazinha de sua infância. E vale inventar uma em cima do lance. Tipo assim: meu avô fazia jacá e eu resolvi fazer objetos de bambu, pra poder estar mostrando etc. e tal. O pai do outro rebobinava motor elétrico e ele resolve eleger o cobre, por sua materialidade, suas virtudes maleáveis, etc. (Ah! Não se esqueça do conceito! Energia, nesse caso. E funciona, sobretudo para o vernissage. Um estudante de arte que chegou atrasado ou não teve aquela presença de espírito. Há três semanas fez umas fotos de um banco fincado à beira de uma praia. Tábuas pintadas que teriam sido de carroceria de caminhão ou de barco.
Na Folha de Sao Paulo, dia 28 de fevereiro de 2012

E agora ele vê uma foto no jornal, notícia de uma exposição de um artista alemão. Puxa, cara! É a mesma coisa! Diz ele aos colegas, entre surpreso com a coincidência, tipo “eu estou no caminho certo" e revoltado, tipo "essa Bienal  tem as manhas".
Que tal essa montagem? Uma em cima da outra, como se estivesse na galeria, diante do visitante.  
Sucesso, vem pra mim que eu também quero!
(montagem sobre foto da FSP acima referida)


Nada. Não implica em nada. Uma foto de umas tábuas com certas cores e grafismos não faz de ninguém um artista. O alemão trouxe diversos quadros e é isso que merece ser chamado de “obra”. E ele contou sua história (e se é alemão, há alguns lances terríveis e prediletos) e é capaz de sustentar no gogó a sua criação. Isso, a prosa em torno, faz parte da obra, como também se colará a ela a crítica. E também minha paródia. E tenho historinha? Sim, a estética da recepção permite-nos também buscar ressonâncias na memória. Revelo essa: meu pai comprou umas tábuas velhas, pintadas e repintadas, da carroceria de um caminhão. E fez com elas um cercado para o cavalo. A gente brincava por ali no quintal e gostava de descascar as tintas com as unhas. E novas camadas, em outras cores iam surgindo.
Gestual: Unha e prego, em alemão, são a mesma palavra Nagel.

Mas não deu em nada, pois falta muito aqui para surgir um artista. Tipo levar uma parede para a bienal, como fez o Marepe. Genial. Cortou e levou a parede da velha mercearia do pai, de alvenaria. Altas estratégias de engenharia e logística. Ou aquela idéia de ampliar um brinquedo de madeira, um carrinho feito de caixote, até a proporção de um carro de verdade, tamanho um por um. Está no museu Inhotim, paraíso dos jardins e da arte atual, em Minas Gerais.
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LICHTENBORG
e seus desaforismos amestrados

“ERA DE UMA CLAREZA PASSAGEIRA, OU SEJA, EFEMERIDIANA”.

“Agora virou moda, como sub-produto da pretensiosa ‘ciência do esporte’, depilar pernas e braços de ciclistas e nadadores, pelas razões aero e hidro-dinâmicas, que guiam esses novos escravos do esforço físico rumo ao pódio das vaidades. Por conseguinte, seria razoável apostar que homens peludos e mal barbeados nos trarão o ouro olímpico no paraquedismo, que premiará o último a cair no chão .”
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FIM DO MUNDO EM 2012? Nem morta.
Não. Ainda, não. Só depois da copa 2014, com ou sem venda de catchaça no estádio. Finalmente, a NASA entrou nessa conversa para explicar que os indígenas Maias, com toda sua inteligência e violência, não tiveram condições de calcular rotas e impactos de meteoros. O mundo sempre pode explodir e isso pode ser este ano ou em outro qualquer, mas não se pode dizer quando. A nota da NASA não revela o método seguido pelos cientistas para desqualificar as previsões nostradâmicas da vez. Todavia, fontes secretas nos revelam (as mesmas que se dedicam ao hangar 46) que a chave para o desmentido científico foi uma sessão de sortilégio. Além dos búzios e do tarô, um recurso muito antigo é analisar as vísceras de animais. Se você quiser fazer isso em casa, fique à vontade, mas não precisa matar o poodle da vizinha. Derrame creme de leite em uma xícara de café forte. E em seguida, interprete os sinais. Nossa receita, ligeiramente calórica, rende uma porção de dúvidas e uma imagem meio nojenta. Mas o fim do mundo seria pior.
Faça você mesmo previsões com creme, açúcar ou adoçante.

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E AINDA TEM UMA CHARGE, DE SOBREMESA


terça-feira, 6 de março de 2012

NOTAS SOBRE ÉTICA E ETIQUETA

(... mas antes, porém)

MINHA GRAVURA DE GOYA, EL GROTESCO

Conforme el prometido, fiz una gravura actual para la série de caricaturas de Goya, expostas en el museo de Curitiba, lo del ojo. En breve, tempranito, la imagem será transferida para el post relativo al ensayo sobre el grotesco, en la série que expõe flashes de la história de la filosofia ocidental, en este blog pretensioso. Nota fônica: este portuñol deve ser lido com um toque de fronteira cuiabana, por influência del guaraní e del quéchua, pois é bacana falar tchapa, djaguá, catchaça y otras cosas del naipe.


- E não é que ficou boa!

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ADENDO AO CAPÍTULO 998
DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA UNIVERSAL

15. Um bolo em John People. Estava este filósofo brasileiro do cerrado posto em relativo sossego no brasileiro nordeste, em gozo de licença trabalhista, para trabalhar. Licença legal aquela, para concluir tradução. Tradução concluída, chefia! Claro, do flat com vista para o mar na praia de Tambaú. Desde homem da cobra a festa por posse de ficha-suja local, o busto do briguento Tamandaré, perto da casa de José Américo, é onde tudo acontece. Mas no âmbito acadêmico não me aconteceu quase nada, exceto essa bagaceira, como se segue. De repente, docentes novatos me convidam à queima bucha para um evento de filosofia no campus. No improviso, sugiro falar de meu novo livro. Ok. Fui no dia certo e na hora certa, com meia dúzia de exemplares desse livro sobre A transformação da Teoria Crítica e... cadê todo mundo, oxente? Anfiteatro no escuro e nem guarda sabia de nada. E ninguém pra se desculpar depois. Mistério, mistério – mas que não envolveu meu velho chapa Ed Morte. Coisa de calouros. Por sorte, não foi perdida a pernada até o campus da UFPB: por acaso me encontro com os doutorandos Paulo, de São João Del Rey, e Romero, do grupo Kierkegaard e militante de nosso sindicato.
16. Maceió deu tilt. Ao voltar da Paraíba, uma parada em Maceió, para comer um peixe e tomar um sol na praia do Gunga. Poderia ter acontecido também uma visita ao curso de filosofia, mas... o endereço de meu ex-aluno sumiu do poste. Achava a rua do agora professor – nosso orgulho na UFU -, mas a numeração pulava aquele lote vago. Pensei que ia vender uns exemplares e encher o tanque de gasolina, mas nada. Cada vez mais improvável uma vida cigana de filósofo que sai por aí vendendo livros como quem vende CDs em bares nas calçadas. Na pequena Grécia antiga talvez fosse viável a filosofia peripatética, mas nesse Brasil enorme sobrou-me o patético: endereço inexistente. E depois ainda vão dizer por aí que o moço não passou.
17. Um título previsto em outro lugar. Na orelha do livro, justifica-se a ousadia do título, na esteira da undécima tese contra Feuerbach. Apel também se aproveitou da idéia. Mas vejo agora que não precisava sofrer por isso. Em 1992, ao pedir uma bolsa ao DAAD, tive que escrever apenas página e meia de um “programa de trabalho” na Alemanha. Vejo agora que ali já aparecia a perspectiva da transformação: com Habermas, dizia mestre Borges, estaria ocorrendo uma “transformação da teoria crítica em teoria da racionalidade”. Whatever it means. O chato é que os colegas que estudam Adorno – e muitas vezes se prendem a ele como a um guru – considerem esse movimento como degeneração, deturpação, traição, etc. Não se trata de nada disso. Para entender melhor, caro leitor, compre e leia meu livro. E ajude-me a esgotar a primeira edição. (BORGES, Bento Itamar. Transformação da Teoria Crítica: a conversão de Habermas ao paradigma discursivo. Uberlândia, EDUFU, 2010 – WWW.edufu.ufu.br fone 34 3239 4293)
18. Além desse adendo na historiazinha de um livro de filosofia publicado no cerrado deste mundo globalizado, convém lembrar que o blog é um work in progress e que novos episódios e peripécias podem vir, tipo “edição esgotada”. Além disso, foi providencial esse acréscimo de itens, que já somam dezoito. Senão, poderia rolar a insinuação de que este devoto digitador houvesse forçado a barra para fazer de suas tripas uma herética coroação de espinhos e glórias. Se tivesse sido mantida a quantidade original de paradas – 14 (quatorze ou catorze) –, alguma mente maldosa e com um mínimo de cultura de sacristia talvez visse uma via crucis em minhas jocosas lamentações de intelectual de província. Not quite. Em desagravo cautelar, adianto que eu não via as coisas assim, embora goste de cantar os versos de Evaldo Braga: “sinto a cruz que carrego bastante pesadaaaa”, até porque a torcida costuma ver tanto as pingas que tomo quanto os tombos que levo. Agora, que ninguém me venha com  rasteiras, pois mineiro também roda a baiana e solta a voz nas estradas.
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ASSUNTO NOVO: BIO-ÉTICA PRA BOI NÃO DORMIR


TEOLOGIA DE PARACHOQUES: QUEM AMA NÃO DÁ CHOQUE


Um gaiola na BR 153, cheio de bois engordados para o abate. O boiadeiro para de vez em quando e confere a carga. Se algum boi dobrou os joelhos e deitou no piso quadriculado de caibros e mal forrado de palha de arroz, leva um choque capaz de fazer o animal aprumar. O boi deve viajar de pé ao lado de seus vinte e poucos colegas nelores de tantas arrobas. O animal não pode se ferir no piso e nem ser pisoteado por outros, nas curvas e freadas. Não se pode estragar a carne e nem o couro. Quando entram no caminhão e, depois, por causa dos choques, os animais cagam verde, de medo e de dor. Na foto, vemos que o estrume cobriu o verbo de ligação, que não faz muita falta: lemos e entendemos rapidamente "DEUS ... AMOR". Os bovinos são pessoas simples e não entendem bem como pode ser isso: se o caminhoneiro acha que seu Deus é amor, como pode levá-los para o açougue e chamá-los de carcaça? Na Índia, de onde vieram, vacas são sagradas. E, embora possam ser usadas para puxar carroça e arado, são objeto de culto e adoração. Alguns indianos matam galinhas com faca, mas quem são as galinhas, afinal, perto de uma vaca sagrada?


                                           
 Estas deram sorte e ficaram lá na India, na Ilha de Vishnu e Shiva


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Semana passada, na UFU, uma mesa-redonda sobre direitos dos animais. A nova mestre Spacek; Leo, o arguidor da casa; Darlei, o arguidor que veio de longe e Alcino, o orientador. Parabéns a nossa aluna, que fez bom trabalho e quis ir mais longe ao propor conciliação entre modelos e nomenclaturas. A impressão que tem o ouvinte comum é que no campo da ética há inúmeras teorias e posições, de tal modo que cada um pode montar seu kit ou menu: sou abolicionista, mas não aquilo outro ou sou a favor disso mas não radicalizo tanto, etc. E não se trata de ajustes meramente nominalistas, nem de hipocrisia. Pelo contrário, é louvável a atitude dos colegas Léo e Darlei (não fiquei para o debate e não me refiro à tomada de posição do moderador Alcino), pois demarcam claramente coisas do tipo: sou contra o aborto por causa disso e daquilo, mas não pela "sacralidade da vida" (Léo). E a audiência tampouco reagiu a isso, com resmungos ou aplausos ou ranger de poltronas. E Darlei já admite maturidade bastante para relatar que evoluiu de uma postura coginitivista para uma moderada postura "falibilista", pois agora vê que não podemos justificar coginitivamente nossas atitudes morais. Não sabemos o que é verdade nesse campo complexo de opiniões movidas também pelos sentimentos mais imediatos de compaixão, sobretudo pelos pobres coelhos de laboratório chorando com o xampu e gatinhos abandonados a miar em busca de um dono amável. Mas, lembrou Léo, esses amigos queridos, inclusive sua querida gata Mila, comem ração fabricada com a carne de terceira dos bois que vão naquele caminhão de Goiás para São Paulo e de lá, para churrasqueiras e panelas.

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Darlei atualizou sua posição na bioética para uma certa mistura de cuidado e respeito: um "cuidado respeitoso" ou um "respeito cuidadoso". Essas duas medidas podem se distribuir assim: um caçador nas savanas africanas corre atrás de um cervo o dia todo. Ambos estão cansados. O animal se entrega, ajoelha e deita-se ofegante. O caçador pede desculpas e diz que sua tribo precisa comer (não apenas inhame). Um golpe de misericórdia e outras frases de efeito ritual, em respeito ao nobre comportatmento da caça, que lutou bravamente e cujo espírito voltará ao deserto e vai por aí, conforme documentários da BBC e o filme Os deuses devem estar loucos. Ora, o caçador manifestou respeito pelo animal, ao mesmo tempo que se sente encarregado de cuidar de sua família de gente, da tribo, que carece de proteína. Essa bela cena não tem muito a ver com nossa conturbada vida capitalista, pois as fábricas de leitões e frangos não dão chance para conversas com milhares de animais quando são castrados, alimentados na marra e abatidos em esteiras rolantes. O respeito, quando muito, ficará restrito ao transporte - menos agressivo, por exemplo, sem os choques e em caminhões estofados, quem sabe.

Enfim, a conversa com o animal caçado, antes do golpe, não chega a constituir uma ética, mas funciona como etiqueta. Assim também fere a etiqueta quem fala de cenas de matadouro durante uma refeição. Quem não come carne não deve ir a churrascos. E quem come deve pensar seriamente em mudar seus hábitos alimentares, por essas razões éticas e por outras (contra o desmatamento, por exemplo).

Todavia, por enquanto, uma elevada lição de etiqueta (acadêmica, inclusive) foi exibida naquele evento acadêmico, senama passada, quando cada participante da mesa sobre direitos dos animais expôs suas convicções. Essa transparência é boa e louvável, pois não se trata de blefar, de querer parecer mais radical do que de fato cada um consegue ser, nesse mundo maluco dos negócios e da publicidade, que é também o dos hospitais e escolas, onde atuam comitês de ética. E é "um mundo de incertezas" onde, todavia, florescem algumas virtudes.

Eu, que não posso contribuir muito com a bio-ética, mas quero criticar também isso, digo aqui, para seguir esse belo exemplo dos colegas: não sou vegetariano e não crio animais para abate... no momento. Mas já tive umas vaquinhas à meia com meu irmão, que alugou umas terrinhas. Foi no tempo do Presidente Sarney. Vendi minha parte para pagar o empréstimo compulsório de um carro novo. Fiquei no prejuízo, mas não com tanto remorso assim. E eis a marca da sociedade, que guardo como lembrança de alguma coisa ambígua, como tantas outras nesta vida.







quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O MAU GOSTO EM CURITIBA E ADJACÊNCIAS

HISTÓRIA DA FILOSOFIA – CAPÍTULO 997


“O feio, o ruim e o falso”. Isso pode parecer título de um filme de caubói espaguete, mas é apenas o negativo dos três grandes valores de nossa cultura metida a universalidades: o belo, o bom e o verdadeiro.
Em 2001 e 2002, estava este filósofo do cerrado muito livre e cheio das idéias, ou seja, em licença de pós-doc. Podia fazer o que lhe desse na web e mesmo trabalhar por encomenda. Topou. Os caras da psicologia da UFRGS – e os psicanalistas – em torno do colega e guru Caon estavam lendo e falando de “O império do grotesco”, que é o mundo da mídia e título de um livro, onde caberiam Chacrinha, Ratinho e todas as paniquetes e jackasses.
Este blog continua com o plano de contar a história da filosofia universal, ou seja, as peripécias dos textos publicados por seu sub-escritor (sic e cpf), o filósofo do cerrado. É história e tem data marcada aí. Lugar: entre Porto Alegre e Santa Maria, com passagem pelo Museu do Prado, na Espanha, e pela Bahia de Gregório, o Boca do Inferno.
Então, vejam, caros principiantes, como funciona a filosofia no mundo em que vivemos e nos Brasis dos contrastes: é permitido pesquisar por encomenda. Sim, senhores. E sem ganhar grana alguma. (Um dia volto à carga, mas é que os sacanas da agência não deram bolsa para esse pós-doc! Foi na raça e na meia-porção de galeto com polenta e taça de vinho sem marca...)
Mas... e o prazer? O gosto de entrar no jogo e de ver umas cem carinhas loiríssimas olhando para o palestrante, meio assustadas. Pois, além de apresentar aos psi da capital da gauchada, levei o ensaio a um evento de estética, na UFSM , Santa Maria. Aí, ao falar das mulatas, do erotismo e da musa praguejadora de Gregório de Matos Guerra, levantei os olhos do paper e só vi loiras e galegos com olhos azuis arregalados.
O ensaio foi longe, até o Kitsch e um chute, um salto por conta própria: a função crítica do grotesco, do mau gosto, do feio, etc.
Quem quiser ler, pode encontrar o texto no site da turma da psi, cujo título misterioso é Mars Gradivus. Parece que foi a inauguração da página, tipo número 1, ano 1, em 2002. E por muitos tempos foi o endereço mais visitado no Google para o tema “grotesco”.
Dois anos depois, o texto foi publicado na revista da PUC de Porto Alegre, a Veritas. Fazia minhas pesquisas naquela instituição, onde obtive o certificado de pós-doc. Fez sentido publicar lá.


Para um futuro que já vem apitando na curva, ficaria bacana uma versão ilustrada, pois há muitas referências a artes visuais e imagens, em geral.
Além de contar a historinha desse texto publicado, caberia aqui um adendo, uma atualização.
O español Goya foi uma figura muito importante para o acervo de imagens grotescas e para dar estofo aos que buscavam uma teoria do grotesco. Conhecemos algumas imagens chocantes com cenas de guerra. A mais apreciada pelos filósofos, inclusive, quem sabe, os cartesianos e kantianos, é essa, com gatos que se transformam em corujas e morcegos.
OS MONSTRUOSOS SONHOS DA RAZÃO

O professor Ernildo Stein é um dos tantos que citam essa bela gravura. Agora, fica ainda mais clara a inteligência e a loucura de Goya. E precisamos registrar aqui um convite e uma ressalva:

Vejam no Museu Oscar Niemeyer, de Curitiba, a exposição da série de gravuras de Goya. São umas oitenta gravuras, feitas e publicadas há uns 213 anos. Sempre trazem um título e, na exposição, uma explicação, uma contextualização da crítica, do deboche, do escracho, em torno de megeras, bruxas, demônios e sonhos.
¡OLHA O GOYA NO MUSEU DO OLHO!

Curioso é que a primeira de todas essas gravuras seja... um auto-retrato. Goya se inclui na série de devaneios sobre o feio, o assustador, o sórdido, o lúgubre, o nojento.

Ora, isso puxa uma anedota a mais e uma promessa. Nossa colega de ofício, Imaculada Kanguçu, a Leca, hoje na UFOP, às vezes referiu-se a meu nome e sobrenome, seguidos do aposto, “o grotesco”. E eu gostava. Curti.

A promessa: vou em breve imitar o Chico Goya e fazer mais uma gravura, com cena que ele teria gostado de ver, numa praia brasileira. Com mulata digna de Gregório, o desbocado.

O GROTESCO NÃO É TOSCO.

EIS O Y DA QUESTÃO,
ANTES DE UM EISBEIN
NO BAR DO ALEMÃO

onde, aliás, podem os maiores tomar um chopp batizado com Steinhager...
Nesse caso, um gostinho bom.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

CAIAS NA ESTRADA E PYRIGAS VER

SESSÃO TECNOPUNK

1. Maravilhas da tecnologia: com a nanotech e quem sabe as células-tronco, poderão os empresários da doença realizar grandes curas, antes impossíveis: poderão fazer cego andar e aleijado falar, etc. (por enquanto, só ratos de laboratório conseguiram algum progresso, mas eis que surge um gato faminto e...)

2. Transformers: garrafa pet vira blusa e dá novo sentido a um sinônimo de cachaça: Blusa engarrafada (mais, sobre a ética mitigada da garrafa plástica para conter cachaça, tipo Pedra 90, pois o coitado do cachaceiro pobre nao pode tropeçar e quebrar a garrafa tão chorada... E nem pode se ferir nos cacos. Um grande bem, um avanço, já que os caras nao vão largar da marvada. Aliás, não vamos, colegas.

3. Filosofia da ciência (essa dá charge!): o problema com o acelerador de partículas é... "cadê o freio dessa joça?"

4. Nao basta amar a sabedoria. Como se diz em bom grego "ojeriza diante da burrice"? Exemplo: tem algo mais imbecil que um carro blindado conversível? O do John Kennedy era... E que tal um carro anfíbio conversível? Tem base imaginar o motorista com escafandro? Conta outra, vai.

5. Cinema surdo: Fellini tava bêbado. Nem tudo do gênio é genial, o filme "Julieta dos espíritos" é uma besteira, uma piada mal realizada, um desfile de chapéus enormes, mas sem a poesia de Amarcord ou o painel da society em La Nave va... Ou estava aprendendo ou já estava caduco ou bebeu demais.

6. Nem tanto. O disco da Daniela Mercury, “Canibália” , inclui a cantiga do Belchior: “como nossos pais”. Aí já é demais, pois nem índio faria isso com os velhos. E dizem que no pólo norte quem comeria nossos pobres pais em fim de linha seria o inocente  urso.

Depois dessa, "saudações polares".

domingo, 15 de janeiro de 2012

HISTÓRIA DA FILOSOFIA - CAPÍTULO 998


POST LONGO SEM MUITA FIGURINHA,

MAS DEPOIS TEM CHARGE NOVA

E INFATILIDADE FILOSÓFICA



Sim, existe filosofia no Brasil e até filosofia do Brasil. Este blog está aqui para mostrar que é possível filosofar nos trópicos. E é igualmente necessário contar como é difícil ser filósofo no cerrado e adjacências urbanas inóspitas.
Alunos e alunas e novatos, não desistam, pois... não se pode vacilar.
Querem ler uma história de resistência e teimosia? Continuem aqui, neste post, pois há um plano: contar as peripécias de um texto depois do outro. Não é para desanimar ninguém; pelo contrário, eis o caminho das pedras tapiocanga sobre as quais caminhamos descalços e no escuro.
Sem ressentimentos, pois é assim mesmo que a banda toca. E nem chegamos perto de Pirsig, que saiu com seu livro na garupa da moto e passou por mais de cem editoras. Também sofreu pacas o perfeccionista e. e. cummings, que ajuntou umas quinze recusas – e com os títulos das casas metidas a besta ele desenhou um cálice. Um brinde ao custoso sucesso? Ou era o trago amargo de sua obstinação em publicar folhas cadentes?
Nem cummings, nem zenbudismo motociclistico; este livro aqui foi publicado pela primeira editora contactada. No problemo, até aqui. No mais, hasta la vista, babe.

1.      Um dia, a gente ria do velho pipoqueiro no campus da UFU, em Uberlândia. Ele desligava o fio do luminoso da livraria da Edufu, para acender a luz em seu carrinho de pipocas. A diretora  veio negociar com o cara, que tinha sua própria noção de universidade “pública”. Depois de um café forte, a colega me consultou se eu não iria publicar em casa? Nada contra, Maria Clara. Ia pensar. E tinha na gaveta a dissertação de mestrado.

2.      Assisti a uma conferência de Nelson Gomes e fiquei encantado, junto com a platéia. Um cara ia matar o príncipe herdeiro do império austro-húngaro. De repente amarelava; não ia mais. De novo pegava a garrucha. O príncipe errou o caminho e cruzou com o pistoleiro: poW! Morto o rapaz, começa a primeira guerra, que deu origem à segunda, etc. Que classe a do Gomes para falar dos contrafatuais! Era como se víssemos um filme. E se o príncipe não tivesse sido baleado aquele dia? O que teria sido de toda a história desde então? E o palestrante defendia diante de alunos e professores um modelo de filosofia: resolver problemas. Pô! Pensei comigo: fiz isso no mestrado – resolvi um pepino criado por Habermas que nem ele encarou pra valer.

3.      Dois colegas de trabalho estiveram lendo minha dissertação e comentaram pelos corredores duas partes dela: a teoria da argumentação, que passava pela dupla Olbrechts-Tyteca & Perelmann – a nova retórica – e o capítulo sobre os contrafatuais. Com isso, já tinha três apoios, para poder dizer, como se faz: atendendo a inúmeros pedidos, depois de muita hesitação, resolvi publicar essa dissertação, até porque, etc.

4.      Originais encaminhados à Edufu. Parecer sigiloso. Tempos depois, a notícia da aprovação e o longo caminho das revisões. Eu contava as vezes em que passara pelo texto, durante a composição e a revisão, vinte anos antes, e agora: umas doze vezes. E jurei que nunca mais leria esse texto que ia virando obra.

5.      Ivan fez foto e criou capa, conforme minhas sugestões. Lei de Murphy: um raro errinho de composição quis aparecer na última chance, na segunda capa: um reles “que que” na gentil apresentação feita por Vani “Zen”. Tudo bem. Saiu.

6.      Sim, saiu, mas não com a apresentação que eu gostaria de ter acrescentado. De quem? Do próprio Nelson Gomes. Não, não escreveu nem mesmo uma página e, aliás, não apresentou uma desculpa. E Felipe Sahd, meu coordenador na pós, fez um meio de campo, mas nada. E não era só por razões pessoais; um pouco também para reforçar uma tentativa de cooperação entre UnB, UFG e UFU – que poderia levar a um doutorado dessa trinca. Não apostem nisso.  

7.      O livro saiu, graças também ao empenho de nosso colega Humberto Guido, atual diretor da Edufu, que redigiu uma generosa orelha, que dava conta também de minha humilde atuação prática – em nosso sindicato, por exemplo, e junto a movimentos populares; e isso reforçava a arte da capa e o vermelho no subtítulo.

8.      Teríamos um evento local, uma Semana de Filosofia, em 2010, e imaginei um debate, uma mesa-redonda. Cheguei a convidar os dois colegas, que haviam lido a dissertação. Nada de mesa, nem debate. No máximo, eu teria conseguido montar um caixote no horário da tarde, quando os calouros cruzam para lá e para cá no agito das comunicações. Deixa disso! O livro estava impresso e seguiria seu caminho de mercadoria. Que o mercado cuidasse.

9.      Enviei alguns exemplares do livro a alguns colegas que já me presentearam com seus livros ou que fizeram mestrado e doutorado na UFRGS em minhas épocas. Alguns agradecem, comentam. Ok. Curioso é que o exemplar encaminhado ao Prof. Nelson Gomes, na UnB, foi devolvido pelo correio como “destinatário desconhecido”. Parece a novela do pistoleiro querendo e não querendo puxar o gatilho... E depois de duas guerras e muitas batalhas, já não interessa conjecturar sobre o que teria acontecido ao meu livro se Gomes o houvesse enfeitado com seu prefácio. Nada. Eu não estaria rico com vendas turbinadas, nem nada. Mestre eu já era, desde 1986 e ia ficar do mesmo tamanho, como diria Montaigne – nem genial, nem tonto.

10.  Além disso, eis o que é importante: uma boa resenha em uma boa revista! Ricardo Navia, meu colega uruguaio, publicou a resenha na revista Filosofia, da Unisinos. E fiquei muito agradecido, pois é um intelectual muito capaz e sério, embora eu nem sempre consiga acompanhá-lo em sua campanhas de filosofia analítica e de meta-filosofia.

11.  O professor Danilo Marcondes, que fora um de meus argüidores em 1986, era agora em 2011 o representante da área de filosofia na Capes. Peço a nova diretora da pós que leve um exemplar ao Danilo, com cartinha cordial. Geórgia volta de Brasília e...? Nada. Pior: ela entregou o livro a ele. Não houve desvio dessa vez. Ok. Isso também era um pouco de lobby institucional. E serei sempre grato a Danilo, pela elegante argüição e também por me haver emprestado –uma boa quantidade de textos, que copiei e li e citei.

12.  Nova Friburgo, hotel na serra, 1985. A recém-criada ANPOF organizara um colóquio para que a comunidade filosófica brasileira soubesse quem era esse tal de Habermas. Um colega do Rio, Cósimo, ficou sabendo e me deu a dica. Fomos de bicões. A Anpof já nascia elitista e metida a besta. Como é que o meu orientador ou os coordenadores de pós não me convidaram? Forçamos a barra e fomos aceitos como participantes e até descolamos um almoço ou dois. Ali, quem já conhecia algo de Habermas expôs aos demais. Rouanet, Danilo Marcondes, Raul Landim, Herrero e Stein estavam lá. Pedi a meu orientador que me apresentasse aos capas-pretas  e ele disse que ali viria uma dissertação muito boa, pioneira, etc.

13.  No dia da defesa da dissertação, em 1986, a sala da UFRGS ficou cheia e tinha gente assistindo pela janela. A minha foi a quarta defesa naquele programa, que tinha sido restabelecido em 1981, com o fim da ditadura e a volta dos exilados. Só havia esse mestrado, então, em toda a região sul. E naqueles anos a demanda reprimida era grande, alta concorrência com os feras locais.Durante a argüição, Álvaro Valls disse que eu não precisava ter trabalhado tanto. A banca teria concedido ao mineiro o título de mestre apenas com o capítulo primeiro, sobre o conceito de “crítica”. Não dava para lamentar, até porque não havia doutorado ainda lá. E porque eu tinha um problema a resolver e fui – praticamente sozinho – até o fim. Stein, meu querido orientador e guru pelo resto da vida, disse que eu sabia escrever e podia seguir em frente. Uma vez, com o texto pronto para a datilografia final, apenas sugeriu que eu cortasse fora o último parágrafo, onde escapara uma tirada irônica e obscura, sobre revolução. Importante, como faria quatorze anos depois Rodrigo Duarte, é que o orientador Stein referendou minha defesa. Isso, sim, foi o máximo.

14.  Certa vez, Stein recolheu algumas da teses que orientara – e, na verdade, orientava quase a metade de todos os mestrandos – e entregou para o Rouanet, que iria publicar uma coleção sobre teoria crítica. Isso nunca saiu. Durante quase vinte e cinco anos, minha dissertação só podia ser lida na biblioteca da UFU ou quando eu emprestava meu surrado exemplar xerocopiado. Agora certas coisas não importam mais. O livro está nas livrarias e logo chega aos sebos. Na internet, a divulgação é rápida e talvez tudo isso ajude a liquidar com o gênero resenha. Não faz sentido se eu comento meu próprio escrito, que já não agüento ler, depois de quinze vezes. Mas posso garantir que essa dissertação é um trabalho acadêmico padrão, do tipo que serve para cacifar um professor universitário. Nada de ironia e pouca criação pessoal, a não ser pela corajosa empreitada de resolver um problema pesado, que Habermas apenas esboçou: qual é o status epistemológico da antecipação contrafatual de uma situação ideal de fala? Depois disso e de uma nova tese, sobre teorias da crise, é que pude me dar ao luxo de escrever com mais liberdade sobre o ensaio filosófico, entre gêneros literários próximos. Mas essas são outras histórias, que ainda virão a este blog.



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SESSÃO DESTINO DAS CORES

(Experimentos metafísicos em paintbrush)


SESSÃO INFATILIDADES FILOSÓFICAS

(nossa versão da filosofia para crianças)

episódio de hoje:SELEÇÕES INDIGESTAS

Quando eu servia meu país em alguma ilha do Pacífico, fui certa vez com a família a um restaurante típico, onde serviam gororobas típicas, ao som de músicas típicas. Meu filho, que já sabia ler, estranhou que os nativos escrevessem uma terrível ameaça ao pé da comanda, onde a moça da balança anotava a despesa: "a perda desta acarretará o pagamento de mil pesos insulares", o que era equivalente a dez quilos daquele engasga-gato. Nem o mais faminto marinheiro de volta à terra firme comeria tanto. Meu filho de nove anos, muito ativo, que já sabia algo sobre a expectativa de validade simétrica dos deveres e obrigações na sociedade contratualista, encontrou certa vez uma comanda daquelas ainda em branco caída debaixo de uma mesa desocupada e, na sua inocência benevolente em relação às instituições, foi até o caixa com um sorriso no rosto. Esperava receber do proprietário uma nota de mil pesos insulares, pois esse parecia ser o valor do papel timbrado e numerado. E, decerto, assim como as notas de dinheiro, aquela moeda local seria um inquestionável meio de troca universal. Sua decepção foi tamanha diante da negativa daquele capitalista de uma figa, que nunca mais quis saber de restaurantes ao quilo, pois aquilo era um lugar de dois pesos e duas medidas. Revoltado com aquela moeda de mão única, aprendeu a pescar, a caçar, a preparar seu próprio miojo em casa e, sobretudo, a desconfiar das instituições da sociedade ocidental, bem como da oriental.