segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O SER ESQUECIDO E UM SUJEITO DESCONHECIDO

Martin Heidegger vivia na Floresta Negra da Alemanha e ninguém queria mais lhe arranjar um emprego na academia. Divertia-se com jogos de palavras, tipo "Holzweg" e "o nada nadifica". 
Nada sabiam vocês sobre o Dindico. Até agora. Francisco de Tal vivia no Cerrado mineiro e falava pouco. 
Trabalhava com Seu Olavo. Não trabalhava-para, nem sob o jugo; trabalhava-com, pois era isso: um Mitarbeiter, um com-panheiro de puxar enxada, moer cana e colher banana em nossa pacífica república. Francisco virou Dindico e, logo logo, Compadre Dindico, pois três ou quatro crianças não iam ficar sem batismo. Deus me livre.
Deus trabalhou seis dias e descansou no domingo. Dindico trabalhava cinco dias e descansava na segunda, pois, no domingo, com o perdão do Criador, ele se divertia como sabia e podia: caçava bichos do mato, quando ainda havia algum. E quando tinha a tralha arrumadinha e as pernas boas pra correr veado e cercar cateto. Até onça encarou. Ela subiu na sucupira. Ele amarrou um dos cachorros no tronco e foi à cidade buscar mais munição. Não sei se acertou. Nesse tempo, não havia Ibama. Entendam. 
De repente, deu derrame. Não se dizia AVC. Parou de trabalhar e de caçar. E quase perdeu a fala. A mulher virou bóia-fria, para dar de comer à família.
Dindico vinha até a rua, última da cidade, perto da franja de cerrado ralo. Um lado esquecido, meio arrastado, arrastando a conga azul.
Dindico quase ficou mudo. Por fim, só falava uma palavras. Mas era a palavra, o termo fundamental, capaz de significar tudo, para confirmar tudo. Diante de qualquer pergunta ou depois de uma longa história contada a ele, para animá-lo, ele só dizia isso: "É..." 

Heidegger lamentava o esquecimento do Ser, sobretudo neste mundo dominado pela técnica, pelos apetrechos e artifícios. Ele que me desculpe, mas é graças à fotografia e à internet que nosso parceiro Francisco - vulgo Dindico - foi aqui resgatado para a história do merecido descanso e daquilo que é para cada um e para todos essencial. 
Aluno de hoje não quer ler muito, por achar que tudo está na net. Nem tudo. Faltava o Dindico e sua palavra, que ocupa pouquíssimo espaço na web. Wéééb...

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TRANSLATION: "Being was forgotten. A guy was unknown". Martin Heidegger couldn't find any academic job and then used to have fun by cutting wood and playing with words such as "Holzweg" and "the Nothing nothings". Señor Francisco lived in brazilian Savanna and worked in the company of Señor Olavo. Francisco would soon be called Dindico and later Compadre Dindico, because his children should be baptized as christians. He worked five days a week, but never on mondays, his particular resting day. Sundays he would do what pleased him: hunt small wild animals. Once upon a time, there were large savannas, many wild pigs and he had good legs to run after them. But one day he had a heart attack and could not work nor go hunting his family's meat. He could hardly walk and talk. He was almost completely mute. He could only say one word, but this was the most important of all words: "is".
After any short quesiton our a long history, he would smile and simply say "é..." (which in Portuguese means both "is" and "yeah"). Excuse-me, Herr Professor Heidegger, but "Being" is not forgotten because of the technique. Thanks to photograph and to internet, everyone now can get acquainted to Francisco, der sogennante Dindico, which could only remember being by saying: wéééb...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

TRÊS CONDIÇÕES DESNECESSÁRIAS E O PAU CERTO

PRIMEIRO, A LEGENDA DA FOTO: IPÊ VERDE NA SERRA DA CANASTRA, OUTUBRO 2010. A ÁRVORE SE CARACTERIZA POR ESSE TRONCO SINUOSO, MAS COSTUMA SER MAIS LONGILÍNEA QUE ESTA, CRIADA NO DESCAMPADO. EM BREVE VOCÊS VERÃO AQUI A FOTO DA FLOR DO IPÊ VERDE, QUE É VERDE. 

E AGORA TRÊS CRITÉRIOS QUE PARECEM MAIS DESCULPAS PARA AQUELES QUE SOFREM DE UM COMPLEXO ESPECÍFICO DE INFERIORIDADE: NÃO EXISTE FILÓSOFO NO BRASIL E NEM "DO" BRASIL. POIS BEM, SEGUINDO A LISTINHA DE GONÇALO ARMIJOS PALÁCIOS*, RESPONDA AS PERGUNTAS ABAIXO:

1. Você é grego? (  ) SIM 
                            (  ) NÃO

2. Você é um gênio? (   ) SIM 
                                (   ) NÃO

3. Você já morreu? (   ) SIM
                               (   ) NÃO 

Resultado do teste: se você marcou "não" em uma, duas ou nas três perguntas, tudo bem. Mesmo assim, você pode ser filósofo. Esses critérios, além de desnecessários, são insuficientes, é claro. Para ser filósofo, você precisa estudar filosofia e querer filosofar. Há certas ferramentas, segundo M C-T, que o sapateiro utiliza para merecer o título e exercer o ofício. E não confunda açougueiro com magarefe e nem contador/contabilista. Assim também, filósofo não é apenas sofista. Mas chega disso. Enquanto você cria coragem, lembre-se: o cerrado está cheio de pau que nasce torto e de gente que acredita que tortura tem fim e tem conserto. Tortuosidade também, o que já lembra um ótimo texto em que a Tortuga de Aquiles sucumbe a este esperado trocadilho. De Lewis Carrol?

*EM TEMPO: O livro de Palácios exibe o revelador título De como fazer filosofia sem ser grego, estar morto ou ser gênio. Goiânia, Editora UFG, 2000.

TRANSLATION: This tree is a variety of "Ipê" (Tabebuia), with green flowers to be found in some regions of Brazilian savana. In Canastra Natural Park, for instance. And then three unnecessary conditions concerning the possibility of becoming a philosopher: as the title of Gonçalo Armijos Palácios puts it: you don´t need to be born in Greece, nor be a genius, nor even be already a dead person in order to "make philosophy". This is a special help for students and everybody outside Europe. Nonetheless, these unnecessary conditions are also insuficient, because you should study in order to achieve skills and tools and one must also wish to say "I am a philosopher". 

ÜBERSETZUNG: Es ist nicht leicht so ein Baum zu finden. Das ist ein grün "Ipê" (Tabebuia) aus Canastra Naturpark, Brasilien. Seine Blütten sind grün. Es ist auch möglich ausser Europa Philosophie zu treiben oder schreiben, obgleich Du kein Genie bist, nicht in Griechenland geboren wurde und noch nicht Tot bist. Das gilt als Titel des Buches von Gonçalo A. Palácios: De como fazer filosofia sem ser grego, estar morto ou ser gênio. (Goiânia, Verlag Editora UFG, 2000)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

EU NÃO MORO NA TORRE DE MARFIM

O filósofo do cerrado é mineiro e gosta de falar 'trem'. E até trenheira (al. Sacherei). E de viajar de trem, como este aí, na Suiça, de Zurique a Genebra. Bom demais da conta, sobretudo quando já não se tem mais professor, nem prazo e nem agência a pressioná-lo. (Um abraço, Dona Helga Wahre! E à patota do DAAD... Valeu!). 
Com isso, vai um pouco do perfil do remetente, que não é de ficar devendo. Foto de 2007, sem grandes mudanças. Uma que outra nova marca de expressão. Na falta de listas, pego carona em um texto de Peter Handke (nascido na Áustria em 1942). Eu traduzi isso do alemão. Me pareço um pouco com isso. Aliás, divergir disso quem há de?("Pega o trem azul, o sol na cabeça..." Lô Borges)


Peter Handke

O que eu não sou, não tenho, não quero, não gostaria – e o que eu gostaria, o que eu tenho e o que eu sou

(Biografia em frases)


O que eu NÃO sou:
Eu não sou nenhum desmancha-prazeres
Eu não sou alguém que engole qualquer coisa
Eu não sou nenhum filho da tristeza

O que eu em PRIMEIRO, SEGUNDO e TERCEIRO lugar não sou:
Eu não sou, primeiramente, um sonhador; em segundo lugar, nenhum eremita; e, em terceiro lugar, nenhum habitante de uma torre de marfim.

O que EU NÃO sou:
Eu não sou um eleitor para voto de cabresto.

O que eu INFELIZMENTE não sou:
Eu infelizmente não sou nenhum herói
Eu infelizmente não sou nenhum milionário

O que GRAÇAS A DEUS não sou:
Eu graças a Deus não sou um autômato
Eu graças a Deus não sou alguém com quem se pode fazer o que quiser.

O que eu DEFINITIVAMENTE não sou:
Eu definitivamente não sou um fantoche
Eu definitivamente não sou um enfermeiro de hospício
Eu definitivamente não sou um depósito de lixo
Eu definitivamente não sou uma entidade de caridade
Eu definitivamente não sou um consolador de almas
Eu definitivamente não sou um estabelecimento de crédito
Eu definitivamente não sou um capacho de vocês
Eu definitivamente não sou um balcão de informações

O que NA VERDADE não sou, MAS TAMBÉM não sou:
Eu na verdade não sou covarde, mas também não estou cansado da vida
Eu na verdade não sou alguém que despreze o futuro, mas também não sou um idólatra de todas as novidades
Eu na verdade não sou um militarista, mas também não sou um defensor de uma paz                                                                                preguiçosa
Eu na verdade não sou um adepto da violência, mas também não sou um saco de                                                                                           pancadas
Eu na verdade não sou um pessimista, mas também não sou um utópico ingênuo

Eu não sou NEM ISSO NEM AQUILO:
Eu não sou nem um nacionalista, nem um indiferente
Eu não sou nem um fanático pela ditadura, nem um defensor de uma democracia compreendida erroneamente

O que eu não TENHO:
Eu não tenho o prazer de enfiar o nariz nas oportunidades de pessoas estranhas.

O que eu não QUERO:
Eu não quero causar sensação

O que eu não quero, MAS:
Eu não quero dizer que tudo está em ordem aqui, mas...

O que eu NÃO quero, MAS TAMBÉM não quero:
Eu não quero contar todas as minhas vantagens, mas também não quero ter falsa modéstia

O que eu não GOSTARIA:
Eu não gostaria de atirar a primeira pedra

O que eu GOSTARIA:
Eu gostaria que nós nos tolerássemos

O que eu QUERO:
Eu quero sempre apenas o melhor para vocês

O que eu QUIS:
Eu sempre quis apenas o melhor

O que eu TIVE:
Eu tive antes opiniões semelhantes

O que eu TENHO:
Eu tenho meus próprios problemas

Para o que eu ESTOU:
Eu estou para o que der e vier

Onde eu TAMBÉM AINDA estou:
Eu ainda estou também aí

O que eu TAMBÉM ÀS VEZES sou, MAS ENTÃO DE NOVO:
Às vezes eu também tenho a opinião de que isto não continua assim, mas então de novo...

O que eu SOU:
Eu sou isto!
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>Post-scriptum: Quando escolhi para título deste post a expressão "Eu não moro na torre de marfim", retirada do poema acima, eu não sabia que anos depois, em 1972, ele publicou uma coletânea de ensaios com o título "Ich bin ein Bewohner des Elfenbeinturms", ("I Am a resident of the Ivory Tower"),ou seja: Eu sou um morador da torre de marfim. cf. Wikipedia

terça-feira, 16 de novembro de 2010

FILOSOFANDO ÀS PAMPAS com ERNILDO STEIN & CIRNE-LIMA

O filósofo do cerrado espera ser lido, como dizia Montaigne, pelo sujeito mediano - mas não medíocre: nem o analfa abestalhado, nem o pedante metido à besta erudita. Uns não sabem ler ou não querem. E outros acham que sabem demais. Querem saber de uma coisa? Eder Jofre só lutava com outro peso-pena. Fair play começa assim: exibir as armas antes do duelo.

Este blog pode servir para duas galeras: os que acham que não existe filósofo no Brasil e os que estão ainda com medo de estufar o peito e dizer com a boca cheia: "yes, eu sou filósofo!" Wie so nicht?

O filósofo do cerrado teve a subida honra de aprender com dois filósofos brasileiros: Ernildo Stein e Carlos Roberto Cirne-Lima. Mas quem os reconheceu como tais? Por exemplo, o filósofo equatoriano, residente em Goiás, Gonçalo Armijos Palácios.

[Ah!... Goiás, Equador...] Lá vem o preconceito, de novo? Palácios estudou quase sempre nos States. Seu orientador foi Milton Fisk. Por coincidência, traduzi texto desse raro comunista norte-americano: "Is democracy enough?" Melhorou agora a credencial?

Pois, então, como eu ia dizendo, Palácios reconhece que no Brasil é possível fazer filosofia mesmo, algo mais que comentar idéias dos outros. Quem tiver coragem pode demarcar como fez Cirne-Lima: "Até aqui é Hegel. Daqui em diante, sou eu falando". E ele falou no livro Dialética para principiantes e em cursos montados em DVD. Um grande achado o seu "Galo da Madrugada", que dá de dez na triste coruja crepuscular de Minerva. É pra cair no frevo do sempre ainda com fantasia de desde sempre.

Stein avançou em Órfãos da Utopia e dezenas de livros. E, claro, em tantos debates públicos e aulas memoráveis da pós, quando moía todo mundo ou... se retirava em protesto. Competência extrema de um "aristotélico onívoro" que não se contentava com amolar eternamente suas facas analíticas.


Não vou contar histórias hoje, baita terça-feira depois de feriadão. E haveria algumas com Stein e seus rompantes, Cirne-Lime e sua fonte de águas em três níveis, num canto do Central Park de Poa. Sim, uma figura em pedra para a velha dialética. Ali onde cantava perdida uma Cariama Cristata do Mato Grosso.

E nem vou anotar o título do livro de Palácios. Não  posso matar a piada do próximo post, que vai fornecer aos incrédulos, inseguros e neófitos três critérios negativos ou "concessivos", tipo assim... você pode ser filósofo, mesmo que não... , nem... e nem....


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O FILÓSOFO DO CERRADO DINAMARQUÊS

Este é um dos retratos de Soren Kierkegaard.  A segunda letra do Soren devia ser cortada por um traço em diagonal, pois os dinamarqueses tem esse e outro sinal gráfico, mas eu não vou procurar isso no teclado. Esse prenome já foi traduzido para Severino. E "Severino" é ou era o título de um jornal e/ou blog do grupo de estudiosos brasileiros que se dedicam a Kierkegaard, hoje reunidos na "Sobreski".

Severino é um nome comum no Nordeste do Brasil. Severino, no post anterior, dava as caras que nem um cabra magricela, de chapéu cabanado, decadente. Pois é assim que um jornal de Copenhague  apresentava em caricatura a figura de Kierkegaard, que puxava briga com pastores e burocratas.

Muito diferente esse retrato aqui, de um jovem pancoso, mais engomadinho, parecido com Schlegel. Enfim, é o próprio sedutor, autor de um método exato para a paquera em alto estilo. Talvez fosse assim que esse burguês queria ser visto por sua amada Regine Olsen. Avisaram a ela? Noivado mais esquisito aquele.

Mas onde é que aparece aqui o... CERRADO? De onde menos se espera, salta o preá - do capim mumbeca. 

Um certo dinamarquês de nome Eberhard Harbsmeier teve um artigo publicado na revista Educação e Filosofia, volume 7, número 13, em 1993. Título: "Kierkegaard - pessoa e obra - biografia e filosofia". Hoje é possível ler esse artigo on line, na íntegra e em fac símile. <www.seer.ufu.br>

A revista já se aproxima do número 50 e é um sucesso internacional. Quem diria? Eu diria. Publicada bem aqui no umbigo do mundo, no Portal do Cerrado...

Eis o texto de Harbsmeier que nos convém citar aqui, truncado como sói acontecer em ambientes deste naipe: "Nascido em 1757, muito pobre, no cerrado da Jutlândia, tornou-se comerciante, enriqueceu e mudou-se para Copenhague". Claro, essa data não é a do nascimento de Soren Kierkegaard, que escreveu sobre o pai em seus Diários: "Até os 82 anos de idade meu pai não tinha conseguido esquecer um fato terrível: quando criança, no cerrado da Jutlândia. Pobre pastor de ovelhas esfaimado e sujeito a todos os males, do alto de uma colina enquanto cuidava dso animais, lançou contra Deus uma maldição". [Quem quiser que quebre a cabeça com essa: o pai já não continha o Patriarca de Temor e Tremor?!]

O tradutor do artigo de Harbsmeier foi Karl Erik Schollhammer. E eu não faço idéia do termo original para "cerrado" e nem sei se os geógrafos e botânicos concordariam com esse mapa. Talvez seja algo próximo ao "Heide" alemão, também traduzido pelo termo "charneca", que é português e soa muito mal. Preferimos cerrado, mesmo que na Escandinávia não haja nem sucupira, nem pindaíba e nem siriema.

Eu não sei como se diz cerrado em dinamarquês, mas isso não fez muita falta quando estive lá naquelas lonjuras. Importante é saber que cerveja é "Ol" e cerveja forte tipo bock é "Fadol". E os daneses brindam gritando "Skol", que não é u'a marca e nem minha predileta. E eis uma boa deixa para encerrar qualquer papo de filosofia, por mais tangencial e inusitado que possa ser ou parecer. E mesmo que a sexta-feira esteja longe ainda.

sábado, 6 de novembro de 2010

QUEM NÃO CONHECE SEVERINO KIKI?


Severino,
embora pareça um típico habitante da caatinga,
vivia mesmo é no CERRADO.
Posso estar errado e o tradutor também.
Mas quem não está?

Severino, o homem que foi parar no Principal Porto do país.
Aguardem mais pistas, por favor.
Ora, ora. A filosofia também investiga
e isso demora e a gente
faz suspense.


Skol! skol!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

IPÉ VERDE & SABER-SE O QUE SE É

Esta árvore não tem o naipe de um ipê verde. O ipê verde fica desprezado, pois suas flores não são nem amarelas e nem róseas. O ipê verde tem esse nome por causa de suas flores, que nem notamos. Eu, que fui criado "na saroba e na margaça", nem cogitava tal nome. Mas via sempre duas árvores sinuosas lá na beira do Rio Tijuco, gêmeas simétricas. E planejava amarrar no entremeio uma rede de dormir, qualquer dia que amanhecesse bem cedo. Chamava só de árvores. 
Pois só agora ao ler e ver o livro de Frederico Ozanan, juntei o nome à figura: ipê verde. Graças ao fotógrafo e à legenda da imagem. E não é que ali no trecho de Tapira para São Roque de Minas, bem no flanco norte da Serra da Canastra, ali vi e reparei uma baita dessas árvores com flores. Flores verdes, sim. Eu também tirei fotos, pois esse é nosso atual critério de certeza e de revelação.

Por enquanto, fica assim: quem quiser ver belas fotos do CERRADO entre no site do Fred: www.fredericoozanan.com.br e/ou compre seus belos livros.

O lance do filósofo é cá pra nóis diferente, mas nem tanto; não chega a ser um "ganz Anders". Menas. Só que depende de um reconhecimento. Não basta adequar uma etiquetagem, tipo ligue a coluna da esquerda de acordo com a da direita, pois não há uma correspondência biunívoca entre coisas e conceitos. Como diria João Rosa: "se há o nome do bicho, é porque existe o bicho nomeado". Mas não basta, pois qual bicho se sabe como tal, com nome  e tudo? E não haveria nomes ociosos?

O filósofo do cerrado já passou por essa refrega, a do auto-reconhecimento. Podem crer. De modo que, resumindo a prosa: o ipê verde dá flores verdes e este locutor que vos falha é filósofo. Pelo menos, está se achando. E olha que nem todo verde vai ficar maduro. Já é, xará.